A lavradora Maria de Jesus, de 29 anos, cuidava dos filhos, em Olho D’Água dos Balduínos, na zona rural de Caraúbas do Piauí (PI), quando ouviu um carro passar em frente de casa anunciando que, no sábado (9), haveria uma festa no centro da cidade, com distribuição de alimentos, escovas de dente, filtros, enxadas. Não entendeu bem a história, mas ficou entusiasmada. Poderia driblar um pouco da dificuldade de criar três filhos (de oito, seis e um ano) com R$ 95 do programa Bolsa Família e R$ 50 mensais que nem sempre recebe da fazenda onde planta arroz e milho. Por volta das dez horas do sábado (9), Maria está na festa, sob o calor intenso e típico da região, com a filha mais nova no colo. Aflita para saber como conseguiria uma cesta básica, chora. “A gente passa fome, tem dia que eu não tenho leite para dar para ela”, diz, apontando a sorridente Rosângela.
A bancária Karina Almeida de Azevedo, de 30 anos, também está na festa. Orienta moradores sobre como filtrar água sem usar panos sujos, manusear alimentos sem contaminá-los, utilizar fio dental, evitar verminoses. Enfrentou quase 24 horas para chegar ali a partir de Porciúncula, no interior do Rio de Janeiro. Viajara de carro, ônibus, van e avião, depois de esperar mais de quatro horas no aeroporto de Brasília e conhecer ao vivo uma crise que só vira pela televisão. "Nunca tive a chance de dar uma contribição deste tipo, só tinha dado dinheiro até agora", afirma.
Maria de Jesus e Karina pertencem a Brasis diferentes que se encontram numa história de pobreza e solidariedade que chama a atenção para um dos municípios mais miseráveis do país. Caraúbas foi adotada por trabalhadores da Caixa Econômica Federal (CEF) dispostos a agir contra o infortúnio alheio. O Movimento Solidário deseja empurrar a cidade rumo à erradicação da fome, à redução da mortalidade infantil e à universalização do ensino básico, como propõe a Organização das Nações Unidas (ONU). Irá até 2015, prazo definido pela ONU para o cumprimento de oito “metas do milênio”.
A festa funcionou como uma espécie de lançamento do movimento na região e para aproximar assistidos e benfeitores - o Piauí recebeu um bancário de 24 estados diferentes, cujas despesas foram pagas pela federação nacional deles. Além da doação de produtos (seis mil, ao valor de R$ 100 mil), houve prestação de serviço odontológico, expedição de documentos, oficinas de ensino de noções de algumas profissões. Como a idéia é evitar o assistencialismo, as ações tentam desenvolver o potencial econômico da região e humano dos moradores. “Esperamos que empresas e entidades adotem esse tipo de modelo de responsabilidade social. O Brasil tem uma dívida social que é de todos nós”, diz José Carlos Alonso, presidente da Federação Nacional das Associações de Pessoal da Caixa (Fenae).
O povo e a terra Em Caraúbas, as pessoas são em geral baixas (1,60m ou 1,65m) e morenas, com o rosto vincado pelo sol e a seca. Os homens olham o forasteiro com desconfiança e as mulheres, com curiosidade. No minúsculo centro da cidade, existem umas poucas ruas de pedra. No campo, são todas de terra. Nas duas áreas, as casas são sempre térreas, e as motos levam até quatro pessoas. Localizada a 269 km de Teresina, capital do Piauí, Caraúbas foi escolhida pelo movimento por estar entre as três piores índices de desenvolvimento humano (IDH) de um estado sabidamente pobre.
Na cidade batizada com o nome de uma árvore típica, conhecida como “para tudo” por suas diversas propriedades medicinais, cada habitante vive em média com R$ 107 por mês. Dos 5,3 mil moradores, 62% não saberiam se tivessem um bilhete premiado na mão. A mortalidade infantil é elevada e vitimará muitos entre cerca de 120 bebês de nascimento previsto até janeiro.
A maioria da população (77%) depende do Bolsa Família. O casal Diomar Machado da Silva, de 25 anos, e Raimunda Machado, de 22 anos, tem direito a R$ 80 reais, para ajudar a criar duas filhas de nome Maria, uma de três anos, outra de dois. Mas precisam pagar R$ 15 para que uma moto os leve até o lugar em que sacam o dinheiro e depois os devolva em casa. É uma mordida pesada, que colabora para jogar o casal a uma dívida de R$ 50 por mês que não sabe como pagar. “No meio do inverno, não tem mais roça, milho, arroz, não dá para a gente comer, nem sustentar os filhos. A gente fica aperreado e aí pede emprestado”, explica Diomar.
Depois do início do movimento, Caraúbas recebeu um terminal eletrônico da Caixa para que as pessoas retirem o benefício na própria cidade. Antes, sacavam em outro município, o que encarecia a viagem de moto e afetava o já raquítico cofre da prefeitura. As pessoas aproveitavam a viagem para fazer compras, deixando dinheiro e impostos em outra cidade. No ano passado, a prefeitura de Caraúbas coletou só R$ 13 mil, tributando basicamente o comércio de leite e de cera de carnaúba, componente de cera de carro, película protetora de CDs e cosméticos. Sobreviveu graças ao repasse de impostos federais - R$ 3 milhões em 2005, ou 230 vezes a receita própria.
A minguada arrecadação impede que sejam realizadas pequenas iniciativas que podem mudar a vida das pessoas na região. No sábado (9), houve a inauguração simbólica de uma horta comunitária em Caraúbas. Vinte famílias, indicadas pelos próprios moradores, terão um pedaço de terra para plantar hortaliças, cheiro verde, coentro, beterraba. A produção começa em dois meses. Quando estiver no auge, abastecerá toda a cidade e ainda vai permitir a venda para outras regiões, tornando-se fonte de renda. O plantio da horta, um trabalho que parece simples, exigiu investimento de R$ 13,5 mil, ou seja, um ano de receita da prefeitura. Foi financiada pelo programa Fome Zero. O comércio futuro da produção será apoiado pela Fenae, numa ação que exemplifica a intenção de fazer com que a cidade caminhe sozinha.
A cozinheira Maria do Livramento de Araújo, de 39 anos, está ansiosa para que a produção comece logo. Ela dedica-se à horta há duas semanas. Desde então, deixa de ganhar R$ 5 diários como cozinheira em casa alheia. Sem o dinheiro, sofre ainda mais para criar sete filhos. “A gente espera e pede a Deus é que dê certo. Estou aqui há duas semanas perdendo dinheiro. Quase desisti, mas minhas amigas disseram pra eu ficar.”
A roça e a seca Além da pobreza econômica, a diminuta receita de Caraúbas tem relação com a necessidade de subsistência dos habitantes. A maioria trabalha em roças, produzindo arroz, milho, feijão e leite para o próprio consumo. Dos 5,3 mil habitantes, 87% estão no campo. A região é um labirinto de estradas de terra do qual só os moradores sabem sair. Não há placas, nome de rua, número nos casebres. As residência estão dispersas – há duas ou três numa área, mais quatro ou cinco um quilômetro à frente.
Nesta época do ano, as estradas de terra atravessam um cenário desbotado e sem vida. A seca deixa as plantas amarelecidas e as árvores, anoréxicas. Solto pela estrada ou preso por cercas, boi magro pasta com a mesma esperança e chance de arranjar comida do que as pessoas. Os que tombam são devorados por urubus. Muitos porcos, todos pretos, cruzam as ruas. A absoluta falta de saneamento básico faz com que proliferem.
Na cidade, não há coleta de lixo e esgoto. A água chega só para 13% da população, por meio de tanques arredondados erguidos cerca de cinco metros do chão por estruturas de madeira. Os moradores chamam-nos de “chafariz”. No “chafariz”, a seca às vezes faz sumir o espírito comunitário e solidário que a privação coletiva costuma despertar. “Às vezes aparecem lá umas mulheres brutas, que empurram a gente, querem roubar nosso lugar na torneira, e aí dá confusão”, conta Quilarinda Machado da Silva, de 51 anos.
Os poços, outra opção de água, duram pouco num dia de seca, tornando a água barrenta, que é consumida mesmo assim. Os açudes secam quase todos. Um dos poucos sobrevivente é o Malhada Grande, onde uma solitária garça tem a água pelos “tornozelos” e dá uma idéia da situação. “A região está fraca. A seca está acabando com a gente”, afirma o comerciante Francisco Ribeiro da Silva, que quis contratar um geólogo para descobrir água na região, mas desistiu por causa do preço pedido - R$ 2 mil.
Uma espécie de “elite” em Caraúbas, Francisco está na região há 40 anos. Sobrevive com um posto de gasolina desde que tinha de bombear combustível com manivela. Ele é um tipo de um benfeitor da cidade. Quando alguém precisa de socorro, Francisco pega o velho Uno preto e, de graça, leva o morador até o hospital mais próximo, a cerca de 100 km, na cidade de Parnaíba (PI), região turística do Piauí – é de lá que saem passeios de barco pelas ilhas do Delta do Parnaíba. Depois de anos de altruísmo solitário, ele espera que a solidariedade dos bancários da Caixa Econômica ajude a mudar de fato a realidade de Caraúbas.
O bem-humorado presidente da Associação de Moradores de Olho D’Água dos Balduínos, Joaquim Gomes Cardoso, de 65 anos, deposita a mesma esperança na solidariedade coletiva. Para ele, o valor deste tipo de iniciativa já foi descrita pelos versos de uma música famosa. “É como canta o Roberto Carlos: eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”, diz.
Fonte: Agência Carta Maior |