Pensar em um outro modelo de desenvolvimento é ter consciência da necessidade de pensar o Brasil como solução e não como problema. Pensar um Brasil brasileiro e não querer imitar "o estrangeiro"
Ao longo do Projeto Prática & Diálogo (2006) vários temas foram discutidos em relação à necessidade, entraves e possibilidades de se construir uma sociedade sustentável em nosso país. Desde as questões relativas aos valores que deveriam balizar esta construção coletiva; até os papéis a serem desempenhados pelo Estado, a sociedade civil, a iniciativa privada, as igrejas, os militares, ou seja, pelos diferentes atores sociais que atuam neste extenso território brasileiro.
Concluindo este ciclo de entrevistas e debates, estamos a discutir as perspectivas dos resultados das eleições de 2006 e as possibilidades da construção de um modelo de desenvolvimento humano sustentável; de um desenvolvimento com inclusão social e com trabalho decente. De um desenvolvimento como fim, como expansão das oportunidades e das liberdades econômicas, sociais, políticas de cada um dos brasileiros, sem deixar de considerar o princípio da sustentabilidade - ou seja, do uso dos recursos (naturais, institucionais, tecnológicos, humanos, etc.) para atender às nossas necessidades de hoje, sem comprometer a qualidade de vida das futuras gerações.
É uma utopia? Pode ser. Mas, não esqueçamos que muitas utopias de ontem são realidades de hoje. O importante é que estamos refletindo e contribuindo para a criação de um ambiente favorável à elaboração de propostas que levem à construção de outro Brasil - um Brasil com uma sociedade democrática e sustentável. Sociedade esta que não será construída se continuarem confundindo crescimento econômico com o objetivo fim da nação brasileira; confundindo, em muitos casos propositadamente, desenvolvimento como decorrência direta do crescimento.
Pensar em um outro modelo de desenvolvimento é ter consciência da necessidade de pensar o Brasil como solução e não como problema. Pensar um Brasil brasileiro e não querer imitar "o estrangeiro". É compreender e aprender com a história que o Crescimento Econômico a qualquer custo não é solução para nós e nem para outras sociedades.
Vivemos um momento do capitalismo contemporâneo em que o país pode conseguir altas taxas de crescimento, medido pelo indicador Produto Interno Bruto (PIB), sem gerar necessariamente os benefícios sociais, a distribuição de renda, o aumento de salário e os empregos prometidos pelos mandatários capazes de absorver o exército de reserva, de mão de obra composta por jovens sem experiência e muitas vezes sem qualificação, e outros que há tempo estão a margem do mercado de trabalho, porque não atendem à "filtragem" do capital. Por este caminho, podemos ter um crescimento que vem sendo chamando de desenvolvimento "sustentado" (ótica estritamente economicista), que é alimentado pela ganância do mercado, e desconsidera os cuidados com a mãe Terra e o futuro das novas gerações.
Entretanto, muitas são hoje as possibilidades que se abrem de apoiar, com políticas sociais adequadas, grupos e comunidades capazes de desenvolver projetos locais de desenvolvimento, baseados na cooperação, nas tradições culturais, nas necessidades sociais e na invenção criativa de novas formas de geração de trabalho (autônomo!) e renda. De nada adiantará se tivermos um crescimento forte sem mais empregos decentes e sem uma sustentabilidade ambiental, econômica, política e social. Como vêm defendendo os movimentos e organizações sociais: Crescimento SIM. A qualquer custo NÃO.
Em vez de lutar por um crescimento econômico como um fim em si mesmo, por uma governabilidade - leia-se apoio político - a qualquer preço, o governo e demais atores sociais devem lutar de forma incisiva por uma governabilidade democrática favorável a um desenvolvimento humano sustentável. Pelo fortalecimento da democracia representativa e participativa, pela cultura do planejamento participativo e de longo prazo, pela formação dos futuros governantes de nosso país, por um Estado transparente e a serviço da sociedade.
Enfim, devemos lutar por um desenvolvimento humano que signifique a incorporação das riquezas, da ciência e da tecnologias a serviço dos brasileiros, independente da classe social, de onde mora e da cor. Devemos lutar por um desenvolvimento que tenha o crescimento econômico como meio do desenvolvimento e subordinado aos direitos humanos universais, à cultura da paz e aos princípios da ética, da cooperação e da sustentabilidade. Não devemos esquecer que "quem ignorar a história corre o risco de repeti-la."
ALBERTO TEIXEIRA é economista, professor universitário e diretor da Escola de Formação de Governantes (EFG).
Fonte: Jornal O Povo
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