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Notícias

  28/11/2006 

Entre esperança e angústia

A viagem vai exigir uma habilidade diplomática excepcional do Pontífice Romano, sobretudo depois do mal-entendido gerado por sua aula magna em Regensburg, Alemanha, que foi considerada ofensiva pelos muçulmanos. Trata-se, reconhecidamente, de uma iniciativa muito arriscada para Bento XVI e será acompanhada pelo mundo com a respiração suspensa

O mundo católico acompanha com preocupação a viagem que o papa Bento XVI inicia, hoje, à Turquia em meio a um ambiente hostil que vem sendo criado por parte dos grupos muçulmanos radicais. A apreensão atinge também as forças moderadas internas, pró-européias, que temem algum incidente mais grave, capaz de afetar as árduas negociações para a entrada do país na União Européia. A Turquia, como se sabe, é o país islâmico mais próximo da modernidade, posto que conseguiu, até agora, manter a separação entre Estado e Religião, sofrendo o processo de secularização mais bem sucedido de todos os países islâmicos que o tentaram (Líbia, Egito, Síria), visto que está atrelado à democracia.

Esse feito se deve ao responsável pela modernização do país, Mustafa Kemal Atatürk, o pai da Turquia moderna, que governou de 1922 a 1938. Mas, o país teve muitas faces, desde a antiguidade, tendo sido submetido por babilônios, persas, gregos e romanos. Seu período de maior prestígio foi quando constituiu o Império Otomano que durou de 1071 d.C, quando da invasão dos seljúcidas, ampliou-se com a tomada de Constatinopla em 1453 e durou até a Primeira Guerra Mundial.

Não devemos esquecer que Constantinopla foi a sede do Império Romano do Oriente, e continuou a existir depois da queda de Roma, em 476. Foi lá que vicejou o Império Bizantino, formado por imperadores cristãos e deu ensejo à formação de uma organização eclesial pouco a pouco distinta da que se firmou no Ocidente, em torno do Papa. Depois que Constantinopla (que receberia posteriormente o nome de Bizâncio e finalmente Istambul) ficou mais importante e poderosa do que a antiga Roma isso também influenciou na relação entre as duas Igrejas, pois o patriarca de Constantinopla passou a ter um poder político mais importante do que o patriarca e papa de Roma. Enquanto no Oriente, o Imperador tinha um papel de proeminência sobre a Igreja, no Ocidente foi a Igreja que terminou submetendo os reis e imperadores.

Quando o bispo de Roma reivindicou uma jurisdição universal sobre toda a Igreja (do Ocidente e Oriente), Constantinopla rejeitou essa interferência considerando-a violadora da tradição. Finalmente, em 1054, as duas igrejas romperam os laços, lançando excomunhões recíprocas. A partir daí os cristãos seguidores de Roma foram chamados de católicos, e os orientais de ortodoxos. Desde então a evolução de ambas as igrejas caminhou separadamente. Os orientais mantiveram o governo colegiado da Igreja, o clero casado, uma mística mais interiorizada. Os ocidentais evoluíram para uma forma monárquica, em torno do Papa, um clero celibatário, uma teologia mais racionalizada e uma liturgia mais sintética.

Deve-se ver que, oficialmente, a visita do papa é a convite do patriarca Bartolomeu I, da Igreja Ortodoxa, visto que as duas igrejas são as que mais avançaram no diálogo ecumênico. Mas, os cristãos, depois da tomada de Constantinopla pelos muçulmanos, se tornaram uma minoria no país, com direitos muito restritos. A Igreja de Santa Sofia (Sabedoria) o mais imponente templo cristão da Antiguidade foi transformada em mesquita e hoje é um museu. E o pior é que os cristãos ocidentais contribuíram para esse resultado, posto que fragilizaram o Império Bizantino, quando os cruzados saquearam a cidade e impuseram uma hierarquia latina, substituindo o patriarca e os bispos locais, por prepostos de Roma. Isso criou feridas profundas entre as duas comunidades cristãs que ainda não foram sanadas.

O patriarca Bartolomeu I, no entanto, considera a visita de Bento XVI essencial para o fortalecimento das forças que lutam pela entrada da Turquia na União Européia. Se isso suceder, o país terá que se amoldar cada vez mais ao modelo democrático ocidental, o que favorecerá o pluralismo religioso e com isso, os cristãos minoritários. A Igreja Ortodoxa vive uma situação de muitas restrições. Pior do que ela só os católicos romanos, que formam uma minoria ínfima. Essas reivindicações da comunidade ortodoxo-católica serão certamente apresentadas pelo papa. Tudo isso gera muita sensibilidade nos meios islâmicos mais radicais que consideram qualquer iniciativa nesse sentido uma ameaça ao Islã.

A viagem vai exigir uma habilidade diplomática excepcional do Pontífice Romano, sobretudo depois do mal-entendido gerado por sua aula magna em Regensburg, Alemanha, que foi considerada ofensiva pelos muçulmanos. Trata-se, reconhecidamente, de uma iniciativa muito arriscada para Bento XVI e será acompanhada pelo mundo com a respiração suspensa. Mas a Turquia terá muito a perder, se algo de grave acontecer ao Papa.

Fonte: Jornal O Povo

Última atualização: 28/11/2006 às 08:00:00
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