O Nossa Voz entrevistou o pesquisador Eduardo Raposo sobre a qualidade do desenvolvimento do Brasil. Raposo possui mestrado em Ciência Política e Sociologia pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ, estudou no Instituto de Estudos Políticos de Paris, onde obteve Diploma de Estudos Aprofundados, tendo realizado seu doutorado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ. Atualmente é professor e pesquisador do Departamento de Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde coordena seu programa de pós-graduação.
O senhor falou que o desenvolvimento do Brasil não eliminou o subdesenvolvimento, ao contrário do que aconteceu nos EUA e países da Europa. Qual foi a diferença?
Eduardo Raposo – Isso é uma das grandes características que precisam ser decifradas. Essa pergunta já foi feita, mas essa resposta ainda não foi dada. Diferentemente dos Estados Unidos, onde o projeto do Norte-desenvolvimentista superou o sul-latifundiário, escravocrata e latifundiário, diferentemente também de países da Europa, onde o subdesenvolvimento, a miséria, a pobreza foram transformadas pelos processos de desenvolvimento, aqui no Brasil nós tivemos um longo período de desenvolvimento, os picos apontando para taxas bastante importantes, desde o início do século passado, crescimentos que geraram em torno de 5%, 8% do PIB, em média, em momentos, o crescimento de 10%, mas esse crescimento não significou a eliminação do subdesenvolvimento. Então essa característica nos desafia: como é que nós podemos mudar este modelo para que não aconteça isso e para que haja desenvolvimento. O Brasil teve um grande desenvolvimento, mas o subdesenvolvimento se multiplicou também.
Então como nós podemos transformar isso?
Eu acho que a raiz desse modelo está em nossas origens ibéricas que produziram um tipo de país que está preocupado eminentemente com o controle político, não com a justiça social, com o desenvolvimento econômico e com a democracia política, que são temas fundamentais da modernidade. Nós temos contato com os sistemas da modernidade, temos vocação para a modernidade, mas também são arcaicos – nós somos híbridos nesse sentido. E esse modelo, que vem de origens muito remotas, foi muito confirmado a partir de 1930. Esse modelo de desenvolvimento de 1930 ele teve uma série de méritos, produziu um desenvolvimento extraordinário, ele colocou a classe trabalhadora como um ator político importante desse novo momento de industrialização, de urbanização do país. Mas ele abandonou também parcelas importantes da população nacional. Abandonou o trabalhador rural. E o trabalhador urbano foi hierarquizado de diversas maneiras, o trabalhador da iniciativa privada, o trabalhador ligado ao Estado, o trabalhador da administração direta, o trabalhador da administração indireta... Então esses grupos que estavam organizados sob a tutela do Estado tiveram um acesso muito maior aos benefícios dessa modernidade do que os outros trabalhadores e isso explica, em parte, no meu entender, a situação que nós chegamos hoje, de ter um país com altos níveis de desigualdade. Nós sabemos que os 10% mais ricos da população nacional detêm aproximadamente 48%, 50% da renda nacional. Então eu acho que esse modelo altamente corporativo tem que ser repensado.
O senhor falou também que um grande desafio é a qualidade do nosso desenvolvimento. Como seria, então, crescer com qualidade?
A qualidade é essa que eu estou me referindo. Nosso desenvolvolvimento foi direcionado para determinadas populações. E foi negado para outras populações. Eu acho que nós temos de mudar essa qualidade: temos que procurar um desenvolvimento de natureza mais universal e menos corporativa. Incluir a todos e não incluir em função do apoio dado ao Estado, em função da corporação a que pertencem determinadas populações. Temos que fazer um projeto nacional e não um projeto dividido em gavetas, em classes, em grupos que tenham acesso diferenciado a esse desenvolvimento. |