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Notícias

  25/10/2006 

Leonardo Boff fala sobre conjuntura política

Autor de mais de 60 livros, Leonardo Boff (68 anos) tornou-se um dos teólogos mais conhecidos do final do século XX ao enfrentar uma queda-de-braço com a cúpula da Igreja Católica em defesa dos princípios e das idéias da Teologia da Libertação. Mantendo-se fiel ao que acreditava, Boff recebeu como punição das autoridades do Vaticano a imposição do "silêncio obsequioso".

Em 1993, ele renuncia às suas funções como padre franciscano para manter seu pensamento ativo na luta pelos pobres e pela sobrevivência do planeta cada vez mais ameaçado pelos desequilíbrios ambientais, econômicos e éticos. Prestou concurso e foi aprovado como professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o Prêmio Nobel Alternativo (Right Livelihood Award), em Estocolmo.
Engajado desde o início nos movimentos populares que levaram Lula à Presidência da República, Boff acompanhou de perto os primeiros anos do governo e chegou a atuar como uma espécie de conselheiro para o amigo Lula. Tem, assim, muita propriedade para falar sobre este período de governo que está terminando e que pleiteia a reeleição.

Ney Sá - Como o Sr. tem acompanhado o cenário político brasileiro?
Leonardo Boff: Temos assistido a uma profunda decepção com a classe política, especialmente com o PT, de quem se esperaria que não reproduzisse a mistura entre bens públicos e privados. Rompeu-se o horizonte da esperança e isso afetou profundamente as classes populares. É difícil refazer a confiança. Recuperar a esperança é um desafio para as bases do movimento social, que estão em contato direto com o povo e crêem que outro Brasil é possível.

Ney Sá - Que mudanças podem ser destacadas no governo Lula?
Leonardo Boff: A mudança mais significativa é que o governo deu maior centralidade à questão social. Mais de 9 milhões de famílias - algo em torno de 35 milhões de pessoas -, são beneficiados pelos programas como Bolsa Família, Bolsa Escola, Agricultura Familiar entre outros. Esses não são atingidos pela crise porque os benefícios que recebem agora são maiores do que os que já tiveram acesso no passado.

Vale um destaque especial para o programa Luz para Todos, que deu condições de integrar socialmente uma grande parte da população, sobretudo no meio rural, que agora tem geladeira, televisão etc. Essa é a base principal de sustentação do governo Lula, que trouxe benefícios nunca antes vistos por eles.

Mas ainda há a contradição macroeconômica que não é adequada e precisa ser resolvida. Hoje, enquanto 135 bilhões de dólares ao ano são carreados para o sistema financeiro, apenas 40 bilhões de dólares vão para projetos sociais. Esse descompasso é insustentável, mas há um movimento interno, que se fortalece no governo para mudar isso. Lula ainda não tentou essa negociação. Espera-se que num segundo mandato essa iniciativa se dê. Isso se impõe.

Este governo precisa resgatar o discurso das mudanças pelo qual foi eleito, e o que já foi feito é insuficiente. Especialmente a reforma política e uma economia mais social. A que temos agora é só neoliberal. São patamares possíveis de se atingir, como já ocorre no Chile e na Argentina.

Ney Sá - Qual é a perspectiva neste processo eleitoral?
Leonardo Boff: Dada a ausência de lideranças e candidatos carismáticos no mesmo nível do presidente Lula, estão criadas as condições para a reeleição. O governo saneou a economia, a inflação e o dólar estão baixos. A política econômica de Lula elevou o poder de compra dos trabalhadores e ganhou a confiança do mercado internacional. Além disso, Lula é identificado como quem combate a fome por razões éticas, e por isso ganhou respeito no mundo inteiro.

Pessoalmente acho que seria bom para o Brasil a reeleição de Lula, porque a vitória de qualquer outro impõe um retrocesso. O projeto neoliberal está em crise, e da forma que se dá no PSDB está superado porque trouxe o empobrecimento em várias partes do mundo.
Se o Estado não intervém, o povo não consegue superar certas dificuldades neste modelo sócio-econômico no qual vivemos.

A vitória de Lula ainda reforça a esquerda no mundo, especialmente na América Latina, inaugurando uma esquerda social. A esquerda da Europa está completamente perdida. Após a queda do muro de Berlim e com o socialismo em crise, o neoliberalismo derrotou várias coisas.

Ney Sá - Que atitudes a população precisa ter para participar das transformações necessárias (políticas, sociais e ambientais)?
Leonardo Boff: A população não pode perder a esperança. Deve apoiar Lula forçando-o a cumprir os propósitos que o levaram até lá. A base dos partidos e dos que apóiam Lula têm que manter viva a bandeira das mudanças.

Consolidar a vitória de Lula é entender que ele representa os marginalizados que estavam historicamente fora do poder. Lula ocupa o poder central para trazer benefícios. Este é um legado a ser preservado como vitória do movimento social.

Podemos fazer um Brasil mais representativo e dar corpo às mudanças, por exemplo, assumindo o meio ambiente como questão estratégica. Preservar a imensa biodiversidade, as florestas.

A humanidade como um todo depende das políticas sustentáveis do nosso País. É preciso ouvir e valorizar pessoas como o governador Jorge Viana, do Acre, e a ministra Marina da Silva, cultivando mais do que o conceito de cidadania, a idéia de florestania. Ter consciência do significado do País para o mundo.

O Brasil tem um importante papel no ensaio civilizatório em curso, que é de ajudar o mundo a ter um rosto mais humano, mais cordial.

Como questão de vida e sobrevivência das espécies, nós temos a maior biodiversidade e potência das águas do mundo. O Brasil tem uma importante contribuição a dar. É estratégico no futuro da humanidade pela água doce. Assim ele é visto pelo G-7.

Estão pirateando as riquezas e destruindo a Amazônia. E a consciência disso ainda é incipiente no Brasil, mas precisa desenvolver-se para ajudar numa consciência mais sustentável, com um projeto nacional mais vigoroso e articulado.

Fonte: Seeb-BA

Última atualização: 25/10/2006 às 10:33:00
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