No dia mesmo das comemorações da independência de nosso país se realiza em todo o território nacional o Grito dos Excluídos que tem como objetivo trazer ao debate da opinião pública as situações de exclusão de milhões de brasileiros, cujas condições de vida constituem uma negação assustadora de sua dignidade de seres humanos.Trata-se, portanto, de um momento privilegiado para refletirmos sobre a realidade humana, que, em nosso caso, é uma realidade de fome e miséria, de exploração e exclusão. Somos cidadãos de um país excêntrico, pois nele apenas uma parcela minoritária de sua população é incluída. Convivem, no mesmo território, uma sociedade moderna, que cada vez mais se assemelha econômica e culturalmente aos países mais ricos do mundo, e uma sociedade marcada pela pobreza e pela miséria com milhões de habitantes vivendo nas cidades e nos campos em formas de vida que aviltam a pessoa humana. Esta divisão interna é aprofundada pela forma de inserção na nova configuração da economia como sistema mundial.
O efeito mais visível da planetarização do capital é o processo de sua financeirização: não só há uma aceleração dos movimentos do capital através da unificação eletrônica dos mercados financeiros, mas, sobretudo, a tendência da autonomização dos circuitos financeiros da economia real o que tem provocado inclusive o aparecimento de uma classe social nova, cujo lugar no sistema é definido através da função que exerce no acesso aos fundos públicos. O Estado se faz, então, refém do capital financeiro.Tal processo não só não atenuou as desigualdades, mas seguramente as aprofundou. Suas conseqüências estruturais são pobreza, instabilidade, desemprego: o desemprego e o emprego instável de milhões de pessoas é o sinal mais visível de um processo de desenvolvimento, que está criando pessoas literalmente inúteis à nova ordem mundial. 4,5 bilhões de pessoas no mundo vivem, na pobreza, 2 bilhões sobrevivem com menos de um dólar por dia.
No caso específico do Nordeste, sabemos que nos últimos 35 anos a economia nordestina de alguma forma acompanhou o crescimento da economia nacional, sendo mesmo capaz, em algumas oportunidades, de atingir taxas de crescimento mais elevadas. Mas de forma alguma se pode afirmar que isto criou uma base de desenvolvimento consistente e sustentável e muito menos com inclusão social em larga escala e com a criação de um mercado interno forte. Obstáculos multisseculares não foram removidos: infra-estrutura deficiente, a concentração da terra, da renda e do saber, dificuldades de inovação em virtude da qualificação deficiente do pequeno produtor, a fragilidade da rede urbana, o nível educacional da população, etc e além disto criamos vários nordestes dentro do Nordeste com cadeias produtivas e níveis tecnológicos diferenciados. Isto está a exigir um planejamento diferenciado para criar uma certa igualdade e equidade nas condições de desenvolvimento com investimentos maciços em educação numa região em que 60% dos jovens entre 15 e 24 anos ou estão fora da escola ou defasados em sua formação escolar o que constitui um grande obstáculo para o desenvolvimento nas condições atuais. Isto mostra que os pobres hoje são literalmente excluídos como mão-de-obra, como assalariados como consumidores. Eles simplesmente não existem e enquanto tal o sistema não se toca com sua morte. Sua inclusão é considerada hoje um grande obstáculo ao desenvolvimento pleno do mercado. Sua exclusão é condição necessária para que alguns poucos acedam à condição humana.
MANFREDO ARAÚJO DE OLIVEIRA é doutor em Filosofia e professor da UFC
Fonte: Jornal O Povo |