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“Ético é o que é bom para a comunidade”. Deste modo simples, Nélson Maculan deu sua definição para nós participantes do Workshop sobre Editoração Científica. Físico, ele já foi reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na última vez que o ouvi foi pela televisão. Ele falava como responsável, no MEC, pelo ensino médio.
A simplicidade de Maculan nos surpreende. É que fomos levados a crer que de ética, como de qualquer parte da filosofia, só se pode falar com raciocínios complicados e palavras difíceis. Muito freqüentemente os filósofos falaram de modo cifrado. Não para esconder suas verdades, mas para salvar a cabeça das diferentes formas de guilhotina que a humanidade criou ao longo da história. A linguagem hermética da academia decorre da especialidade do estudo, mas tem a ver também com o pedantismo de certos cientistas.
A partir da definição de Maculan, dão pena as atitudes de quem só obedece à “Lei de Gérson”, pois quer tirar proveito de tudo. É o individualismo exacerbado. Nele não há ética. Também conhecemos os comportamentos dos que dizem “para os amigos tudo. Para os inimigos, os rigores da lei”. É o grupismo, que leva a atitudes antiéticas porque descoladas do interesse coletivo.
Daquela definição, conclui-se que os conselhos de ética das diferentes profissões já são uma forma de defender o que é bom para a comunidade. Só que às vezes profissionais de um segmento esquecem de ver o que é bom para os demais profissionais. Sua ética é transformada em corporativismo. Esquecem-se da “comunidade dos trabalhadores”.
O amor à Pátria é uma forma de defender “o que é bom para a comunidade”. Levado ao extremo, porém, o patriotismo gerou fascismos e nazismos de diferentes matizes. Este patriotismo esquece do que é bom para a “comunidade mundo”. Soldados de Hitler diziam amar a Alemanha e os de Bush, com certeza, dizem amar os EUA. “Antigas lições”, como escreveu Vandré, em “Pra não dizer que não falei de flores”.
Precisamos aprender novas lições. Que superem o individualismo, o grupismo, corporativismo, o patriotismo. O que uma pessoa faz, repercute na humanidade toda. Sempre foi assim, porém hoje estão mais evidentes os laços a unir pessoas de todos os povos. A mundialização da economia faz-nos ver o quanto “estamos no mesmo barco”. A poluição é uma das ameaças à vida na Terra. Diz-nos que a Terra é a nave a conduzir a vida na viagem sideral. No extremo, nossa atitude mais ética é preservar a vida no Planeta. A vida das pessoas, dos animais, das plantas, do solo.
Este é o horizonte ético da política e da economia: o respeito à vida humana, animal e vegetal na Terra (Para aprofundar este tema, recomendo ler: Leonardo Boff. Ecologia – Grito da Terra, Grito dos Pobres. São Paulo: Editora Ática, 1999, 3ª edição). A política é a arte de firmar pactos para a convivência harmônica de pessoas, grupos e nações. Seu objetivo mais nobre é a promoção do bem comum, isto é, o bem de todos, “da comunidade”. Regida por este princípio, a política será ética, será Política com “P” maiúsculo. Seja a política partidária, sindical ou de uma associação. A política perde seu eixo ético quando descamba para o apadrinhamento, o conluio e outras atitudes, em benefício de poucos, porém em detrimento da coletividade.
Em boa hora, a Constituição Brasileira de 1988 estabeleceu como objetivos nacionais “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais” (Art. 3º, III). Fixou, também, que “a administração pública... obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência” (Art. 37º). Estas são algumas bases para as ações dos cidadãos em geral e dos funcionários de estatais, em particular.
Nós, do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), somos a um só tempo cidadãos e funcionários de uma estatal. Valem para nós a definição de ética dada por Maculan e os princípios da Política com “P” maiúsculo. Estamos em uma instituição cuja finalidade é promover o desenvolvimento regional. O BNB enfrenta o desafio de promover o desenvolvimento de tal forma que preserve a vida na Terra – o chamado desenvolvimento sustentável.
Está em nossas mãos criar fórmula tal que o desenvolvimento regional não repita os erros de outros países: enriquecimento de pessoas e grupos em detrimento dos interesses “da comunidade”; fortalecimento de povos que assumem poderes imperialistas; dilapidação do patrimônio natural e social, a ponto de colocar em risco a vida na Terra. Para acertar esta fórmula precisamos estudar, selar alianças políticas pautadas na ética e optar pelo desenvolvimento que seja “bom para a comunidade”.
Ademir Costa é jornalista lotado no Ambiente de Comunicação do BNB e membro do Conselho Fiscal da Associação dos Funcionários do Banco do Nordeste do Brasil (AFBNB) |