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Notícias

  23/08/2006 

Quando o SER fala primeiro

Os valores da sociedade contemporânea - dinheiro, prestígio, poder, a todo custo - foram confrontados está semana com um gesto inusitado de um cientista russo que, após 10 anos dedicados à resolução de um dos problemas mais instigantes do meio científico - e resolvê-lo - colocou todo o processo de solução na Internet, para ser acessado por todos, e recusou um prêmio de US$ 1 milhão (apesar de viver pobremente) por achar que não fez nada demais.

O autor da façanha científica e moral é o matemático russo Grigory Perelman, 40 anos. Na última quinta-feira, depois de levar uma década inteira para resolver a ''conjectura de Poincaré", que descreve o formato do universo e intriga especialistas há pelo menos 100 anos, resolveu a equação considerada um dos sete ''problemas do milênio".

O extasiamento do público não diz respeito apenas ao seu feito científico - sem dúvida nenhuma, uma inequívoca prova de genialidade - mas ao fato de se recusar a fazer badalação dele, negando-se a deter a exclusividade de sua divulgação, inclusive de fazê-lo apenas em publicação científica especializada, mas o colocou na rede mundial de computadores (Internet), sob a alegação de que todos devem ter acesso ao material e dar-lhe a melhor destinação. Espanto duplificado pelo fato de ele se recusar a receber um milhão de dólares a ser entregue pelo rei da Espanha, justificando que não fez nada de extraordinário. Espanto maior quando se sabe que Grigory Perelman não tem dinheiro nem sequer para pagar um apartamento, tendo de dividir um aluguel de 74 dólares com a mãe que, ainda por conta, está desempregada.

Como se trata de um gesto completamente deslocado dos valores que regem a civilização contemporânea, alguns apenas procuram desqualificá-lo como uma dessas excentricidades tão comuns em gênios. No entanto, as aparências são de uma decisão firmada em convicções muito firmes que envolvem uma Weltenshauung (visão de mundo) bem fundamentada em valores firmemente arraigados. Ao justificar sua recusa à badalação na mídia, explicou: ''Eu não falo isso por causa da minha privacidade, não tenho nada a esconder. Só acho que o público não deve se interessar por mim. Jornais deveriam ter mais discernimento sobre o que publicar, deveriam ter mais requinte. Até onde eu sei, não ofereço nada que acrescente à vida dos leitores".

Ele está equivocado, pois seu exemplo tem um valor pedagógico inconfundível e deve ser conhecido. É inacreditável que num meio onde as pessoas são levadas a buscar dinheiro, poder e prestígio, a qualquer custo, surja alguém para dizer que se contenta com aquilo que é, faz e acredita. Isso lhe basta, sobretudo poder colocar seus conhecimentos a serviço de todos, sem destiná-los apenas ao favorecimento próprio.

São exemplos desse naipe que deveriam merecer todo o destaque da mídia para servir de referência a um mundo em que o ter se tornou um valor absoluto. Isso não significa a renúncia à posse dos bens, à valorização profissional e ao exercício do poder como serviço, mas a conscientização de que tudo isso está subordinado a princípios mais altos - do ponto de vista ético, moral, espiritual e humano, e não vice-versa.

Sem esse nível de consciência, continuaremos a assistir a uma crescente desumanização da vida social, visto que a juventude deixará de contar cada vez mais com referenciais positivos para uma formação baseada na capacidade de transcender o individualismo crasso a que é compelida pelo meio. Veja-se que mesmo em sociedades de abundância o esvaziamento desses valores tem produzido uma juventude sem perspectiva, fácil presa do nihilismo e da desesperança, com resultados, muitas vezes, trágico (como as drogas e o suicídio). É que, embora importante e justificada, a saciedade dos bens tangíveis não é suficiente para aplacar a sede de infinito que cada pessoa traz embutida no mais recôndito de si mesma e só saciada por bens imperecíveis.

Fonte: Jornal O Povo (editorial) 

Última atualização: 23/08/2006 às 18:36:00
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