No dia 30 de junho, Recife sediou o debate “O Nordeste atual e os desafios da política regional”, a segunda das cinco discussões do Ciclo de Debates por um Nordeste Melhor. Para debater o tema estiveram presentes Adriano Dias (da Fundação Joaquim Nabuco), Guerino Edécio Filho (ex-funcionário do BNB e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco), Pedro Eugênio Cabral (ex-diretor de desenvolvimento econômico do BNB e professor da Universidade Federal de Pernambuco) e, mediando o debate, Nilson Holanda (ex-presidente do BNB e professor da Universidade de Brasília), responsável pela sistematização das discussões em um documento, que será entregue aos candidatos à presidência da República.
Na mesa de abertura, Florisval Rodrigues de Carvalho, Secretário de Ciência e Tecnologia, representando a prefeitura de Recife, ressaltou a importância do seminário em discutir os investimentos na região, sobretudo em apontar formas de inserir socialmente as milhões de pessoas que vivem em situação de miséria na região. Os três debatedores foram unânimes ao constatarem a ausência de uma política nacional e regional de desenvolvimento.
Adriano Dias discutiu a questão do desenvolvimento a partir das particularidades do semi-árido nordestino. Ele iniciou sua fala questionando a existência do Nordeste. “Tem sentido se falar em região?” Para ele, só o fato de perguntar se há Nordeste já caracteriza a sua existência. Adriano ressaltou alguns aspectos essenciais para entender a região, como a desigualdade intra-regional, os indicadores econômicos e a peculiaridade do Polígono das Secas, que representa 72% da área do Nordeste, considerado por ele como um dos fatores que une a região.
Guerino Edécio Filho ressaltou que o debate sobre questões regionais está esquecido e que o Ciclo de Debates é uma tentativa de reinserir essa discussão na pauta brasileira. “Não se pode pensar nessa região como uma coisa isolada. Se não houver uma política nacional, não haverá uma política regional”, afirmou. Guerino contextualizou o problema da ausência de políticas regionais e apresentou alguns pressupostos para soluciona-lo. Ele atribui a ausência dessa discussão da pauta política à ausência de um órgão que coordene as ações dos demais, de modo a torna-las eficientes, papel que caberia à Sudene e a um certo “desprezo” das demais regiões à importância do Nordeste dentro do processo de desenvolvimento econômico do país. “Se fôssemos um país, seríamos o 3º maoir da América Latina”, disse. Outros problemas são a focalização excessiva em um único ponto (como a transposição do São Francisco), o que desvia a atenção de outras questões urgentes na região. Guerino questionou o desempenho recorde alardeado pelo BNB, que aplicou cerca de R$12 bi em 3 anos. “Não sei se isso é para aplaudir ou para chorar. Teríamos que trocar o mantra do aplicar, aplicar, aplicar pelo mantra do desenvolver, desenvolver, desenvolver”. Para ele, fazer do crédito o único instrumento para o desenvolvimento é um equívoco. “Não podemos nos dar ao luxo de gastar R$ 1,00 se isso não trouxer um impacto”, ressaltou Guerino, que defende o investimento em educação de qualidade como prioritário para qualquer sociedade superar suas dificuldades. “É preciso investir em inovação tecnológica, mas de que adianta tudo isso se a pessoa não sabe ler a bula de um remédio? É preciso antes de tudo educação”, reforça.
Para Guerino, alguns fatores são determinantes do crescimento e do desenvolvimento econômico, como infra-estrutura física (econômica e social) e institucional, ciência e tecnologia, redefinição do papel do estado e das instituições. O elemento fundamental a ser considerado no processo de desenvolvimento da região Nordeste, no entanto, é o investimento maciço em capital humano (saúde, educação etc), e o aproveitamento das sinergias nacionais, regionais e locais. O terceiro debatedor, Pedro Eugênio Cabral, destacou que o governo federal tem investido em projetos integradores. O problema é que a ausência de planejamento do passado tem se refletido no presente. Para ele, a região precisa aprender a absorver internamente os efeitos positivos causados pelos altos investimentos e investir mais em quadros técnicos.
Pedro Eugênio reforçou a necessidade do fortalecimento da identidade da região e da união entre os estados. Para ele, se perdermos a condição de nos vermos como região ficaremos à mercê dos interesses alheios. “Um projeto de desenvolvimento regional é antes de tudo um projeto político”, afirma. “A falta de unidade política na região Nordeste refletiu no fim melancólico da Sudene, sem mobilização social”, lamenta. Na opinião dele, para o Nordeste ter uma política de desenvolvimento regional consistente deve crescer a taxas maiores que o Brasil e crescer com distribuição de renda e inserção social. |