Colunas - Sócrates (CARTA CAPITAL - 16 de Agosto de 2006 - Ano XII - Número 406)
VISITA A HAVANA Enquanto os nossos esportistas sofrem para falar a própria língua e explicar seus gestos, os cubanos têm na cultura, na competência e na dignidade a receita de como fazer campeões
Há alguns anos tive o privilégio de fazer uma visita a Cuba. Essa pequena ilha do Caribe que tanto incomoda os poderosos nos recebeu de braços abertos. A primeira impressão é a de que estamos voltando ao tempo em que os automóveis eram longos e de linhas retas. Os velhos veículos rodam por toda parte com uma imponência difícil de passar despercebida. Como os velhos sábios, acredito, que pregavam nas praças de Atenas há muitos séculos.
Depois de dois dias no balneário de Varadero, seguimos rumo à capital, Havana. Cidade sofrida, porém belíssima. Principalmente a região central, patrimônio da humanidade. Por culpa da minha curiosidade em relação à área esportiva e do grande sucesso que os cubanos sempre tiveram em diversas modalidades, o momento mais esperado era o de conhecer as instalações olímpicas em que ficam os melhores atletas do país. E isso aconteceu antes do que eu esperava.
Um bairro periférico abriga o complexo esportivo que à primeira vista parece carecer de manutenção, como toda Havana, aliás. Um prédio antigo de paredes amareladas e descascadas tem em uma de suas laterais, escrita à mão, uma inscrição que mostra os seguintes dizeres: “Que me perdoem os fracos – os fortes à frente – esta é uma missão para os mais fortes”. Um pouco mais adiante, uma velha piscina de 50 metros, sem azulejos, espelhos ou qualquer equipamento científico visível. Ao seu lado encontram-se os alojamentos lotados de pura animação, cheios de energia e saúde. Os adolescentes que lá vivem exalam o cheiro da esperança e da determinação. Era hora da refeição que chamamos de almoço.
No velho restaurante, meninos de todas as idades enfrentam uma fila que irradia companheirismo e vontade. Caminhando mais um pouco deparamos com o ginásio, onde velhos aparelhos de ginástica misturam-se a quilos de espuma e ao odor de talco. Os prédios são imensos, com pé-direito alto, e ornados com gigantescos ventiladores que rugem como os violinos de Viena. Recebemos de soslaio um sorriso de uma criatura, pequena na estatura, mas imensa na fronteira de seus músculos. Encontrava-se descalça, de quimono e em seu delicado rosto escorria o suor de sua batalha.
Mais alguns passos, depois de um córrego escuro que atravessava muro a muro aquele pedaço de terra, pisei no que imaginei ser uma pista de atletismo, como tantas que já havia visto. Cercava um campo de futebol de gramado irregular e nada tinha de especial além da areia ou de quem havia pisado lá tantas e tantas vezes. Na sala, ou melhor, no jardim de musculação encontrei muitos e muitos jovens esperando a hora de se dirigir ao comedor. Apoiando-se em barras de ferro tortas pelo tempo, caprichosa, cíclica e lentamente iam se aproximando para depois se afastar do chão carente de verde. A imensa sala de treinamento para halterofilismo estava com seus mais de 30 espaços individuais vazios, mas isso em nada minimizava a positividade concentrada em seu interior. Depois de visitar todos os cantos do complexo, pude me refestelar em uma mureta e me vi a tentar entender tudo o que sentira.
Nesse momento, um antigo coletivo repleto de crianças interrompeu seu velho trajeto para permitir que dezenas delas se dirigissem para perto de mim. Com suas alvas camisas e o amarelo das saias e calças, invadiram aquele recinto. Nas mãos não portavam mais que mochilas, livros e cadernos. Em seus olhares brilhava o conhecimento e a sabedoria. A dificuldade econômica e o bloqueio imposto pelo império americano há mais de 40 anos, na vã tentativa de sufocar uma particular forma de criar uma sociedade mais justa, não lhes havia sequer incomodado a honradez que portavam em suas almas. Sentem-se participantes de um longo processo e de uma dura batalha. E sempre foram vencedores. São fortes porque sabem dar valor ao que existe de mais belo na humanidade: os valores éticos e morais. E aqui está a grande diferença: enquanto os nossos esportistas sofrem para falar a própria língua e explicar seus gestos, os deles têm na cultura, na competência e na dignidade a receita de como fazer campeões.
Hoje, como tantos que admiram e respeitam a causa cubana, preocupo-me com o futuro da Ilha. A doença e a recente cirurgia de Fidel Castro, seu comandante, já provocam especulações de toda sorte. Que a ganância e a prepotência externa não interfiram nas soluções internas. Ainda que seja somente para preservar a alegria que vi nos rostos sonhadores daqueles jovens. O que não é pouco.
Fonte: Revista CARTA CAPITAL |