O Brasil pagou aos seus credores, no primeiro semestre, R$ 81,6 bilhões em juros vencidos ou por vencer, o equivalente a 8,25% de todas as riquezas produzidas pelo país, o chamado Produto Interno Bruto (PIB). O gasto superou o realizado no mesmo período do ano passado, segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC) na última quarta-feira (26).
A maior parte do pagamento dos juros foi realizada com dinheiro de impostos cobrados da população que os diversos governos (federal, estaduais e municipais) deixaram de investir em obras ou programas e com recursos de estatais. A parcela fiscal do pagamento, chamada de superávit primário, correspondeu a 70%, ou R$ 57,1 bilhões.
O valor de R$ 57 bilhões representa 5,77% do PIB. Por lei, o setor público poderia ter economizado R$ 15 bilhões a menos – tem a obrigação de guardar 4,25% do PIB para pagar os financiadores da dívida pública.
Segundo o economista Márcio Pochmann, 20 mil famílias ganham dinheiro financiando a dívida pública. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) considera que uma família média, no Brasil, tem quatro pessoas. Portanto, pode-se dizer que a parcela tributária do pagamento de juros favoreceu 80 mil pessoas com 5,77% das riquezas do país no primeiro semestre.
Para se ter uma idéia de comparação. No primeiro semestre, o governo federal usou R$ 19 bilhões de impostos para cobrir o prejuízo da Previdência, que sozinha, com a arrecadação de contribuições ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), não teria como distribuir todos os benefícios previstos. O valor de R$ 19 bilhões representa 1,92% do PIB. Como foram pagos 21 milhões de benefícios, pode-se dizer que 84 milhões de pessoas ficaram com 1,92% das riquezas brasileiras.
Além da fatia fiscal, o pagamento de juros, no primeiro semestre, teve também uma parcela mobiliária. São recursos que o setor público arrumou fazendo dívida nova (venda de títulos no mercado, basicamente) – uma parte pequena foi financiada por meio da emissão de moeda e por empréstimos bancários. A fatia mobiliária (30% do pagamento de juros) totalizou R$ 24,4 bilhões.
O setor público teve de pegar dinheiro emprestado no mercado para pagar dívidas antigas porque, por maior que tenha sido a economia de impostos, os juros que corrigem a dívida são muito elevados e fazem com que ela cresça mais do que a capacidade de pagamento. Por isso, a dívida total do País subiu de R$ 1 trilhão para R$ 1,024 trilhão no primeiro semestre.
O governo considera, no entanto, a evolução da dívida satisfatória porque, ao se compará-la com o tamanho da economia brasileira, caiu de 51,5% do PIB em dezembro de 2005 para 50,3% em junho. Segundo a equipe econômica, quanto menor o percentual, menos juros o país paga, pois enfraquece o argumento dos especuladores de que haveria risco de calote.
Fonte: Agência Carta Maior |