Vendo uma consulta no site do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região sobre remuneração variável (ou complementar), senti-me na obrigação de contribuir com esse debate em busca das melhores alternativas para a categoria bancária.
A primeira questão é: devemos ou não contratar com os banqueiros algum tipo de remuneração variável?
A resposta é sim, haja vista que a PLR (Participação nos Lucros e Resultados) é uma remuneração variável instituída em lei e que a categoria bancária já contrata com os patrões há mais de uma década (e no BB desde a greve de 2003).
Outra questão é: devemos entrar no debate empresarial de substituir salário por remuneração?
Não.
Quando conquistamos o acordo de PLR na categoria bancária, tínhamos o objetivo de melhorar a renda do trabalhador fazendo com que os bancos distribuíssem parte do seu lucro.
É importante frisar que a grande sacada do nosso acordo de PLR com a Fenaban é o fato de a distribuição ser universal, ou seja, atingir a todos, independentemente de avaliações pessoais ou por unidades da empresa. Esta é a diferença entre a PLR e os programas de PPR (Participação por Resultado) dos bancos.
Analisando as duas proposições de “remuneração complementar” colocadas em debate vejo que ambas apresentam problemas em suas concepções.
1- Percentual das vendas da unidade para distribuir de forma linear aos bancários da unidade.
2- Pedir um percentual da receita de prestação de serviços para dividir para os bancários.
A proposta de ganhar por vendas já tem um problema de discriminação logística, ou seja, somente os bancários que trabalham com venda de produtos serão “beneficiados”. Também podemos ter uma inversão de papéis no curto prazo, ou seja, daqui a pouco estaremos com um salário fixo bem pequeno e na dependência de belas vendas nas unidades para ganhar uma remuneração mensal justa.
A outra proposta de ganhar sobre receita de prestação de serviços também tem problemas. Basta lembrar que a categoria sempre fez parcerias com os institutos (Procon, Idec etc) que denunciam os ganhos abusivos dos banqueiros com cobranças de tarifas. Corremos o risco de a população se voltar contra os bancários futuramente dizendo que eles são beneficiados com esta exploração dos clientes e usuários.
Vendo as duas formatações, dá-me a impressão de que uma se assemelha muito à remuneração dos comerciários (um piso salarial pequeno mais comissão sobre vendas) e a outra me fez lembrar os chamados “marronzinhos” (o guarda de trânsito de São Paulo), os quais a população tem certa “bronca” por dizerem que eles ganham por multas aplicadas.
A consulta diz que as propostas visam pôr um freio nas cobranças das metas abusivas, que causam adoecimento na categoria. Não consigo visualizar de que forma se daria este freio.
Qual seria a alternativa para o tema?
Penso que o movimento sindical bancário não poderá se furtar de fazer o debate da remuneração variável (“complementar”). Até porque precisamos voltar a contratar, senão a totalidade da remuneração da categoria, ao menos a parte mais importante da renda mensal e/ou anual.
Porém, os bancários têm uma missão importante pela frente: Consubstanciar a proposta inovadora de PLR debatida e aprovada pela categoria em 2005, que estabelece uma distribuição de 5% lineares, além do formato já tradicional de 80% do salário mais R$ 800, exigindo que os bancos distribuam no mínimo 5% e até 15% do lucro líquido para seus trabalhadores.
Se conquistarmos este formato em acordo com a Fenaban, todos os bancos terão que cumpri-lo, sem termos que partir para negociações banco a banco, como ocorrido em 2005 onde conseguimos algum avanço no BB (que distribuiu 4% lineares).
Quando os bancários conquistarem esta proposta, todos receberão valores bem maiores e mais justos, sem terem que se submeter a nenhum tipo de meta individual ou por unidade.
Este sim, é um fator mobilizador. Para pensarmos: Acho que devemos fazer o debate da remuneração variável (“complementar”) para o próximo ano.
Aliás, pensando a respeito do tema, sugiro que façamos uma proposta que dialogue com a dicotomia: automação bancária x mão de obra bancária.
Nossa proposta deve ter como objetivo fazer os banqueiros terem responsabilidade social de fato, ou seja, quanto menor o número de trabalhadores bancários e maior automação, maior deve ser o ônus dos bancos.
* William Mendes é secretário de Imprensa da Contraf-CUT e bancário do BB |