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Notícias

  17/07/2006 

Demissões na Volks: tudo em nome do conforto ao capital

Os profissionais do ramo automobilístico adotaram um termo comum das clínicas de cirurgia plástica para definir a “reparação estética” periódica feita pelos fabricantes de veículos. O conjunto de mudanças - faróis redesenhados, frisos diferentes, novo acabamento, etc. – é chamado de “face lift” (literalmente “levantamento de face”, na língua inglesa), termo que designa um dos diversos procedimentos de rejuvenescimento facial.

A tensão provocada pelo recente anúncio do plano de reestruturação da Volkswagen, que pode implicar na demissão de 5,7 mil funcionários, sugere que a reedição do vocabulário das clínicas de estética no universo das montadoras pode ser mais que uma mera coincidência.

O corte de pessoal é a fachada de um sistema de busca por lucro que excede os indicadores da economia - em especial a taxa de câmbio desfavorável às exportações, apresentada como principal justificativa pela direção da Volks para o conjunto de medidas que os sindicalistas vem chamando de “pacotão de maldades”. Na audiência pública convocada pelas comissões de Desenvolvimento Econômico e de Trabalho da Câmara Federal, na última quarta-feira (12), a diretora de assuntos governamentais da Volkswagen do Brasil, Elizabeth de Carvalhaes, apresentou uma série de evidências do tamanho do problema.

Na tentativa de sensibilizar os presentes, a diretora sublinhou as dificuldades enfrentadas pela empresa - que pretende reduzir custos com a mão-de-obra em 25% na produção e cogita até fechar uma das cinco fábricas instaladas no País. Reclamou muito do câmbio, disse que o carro brasileiro é o mais tributado no mundo (segundo ela, o consumidor final paga 30% de imposto na compra de um automóvel popular) e condenou os juros altos. Enfatizou também que a demissão de funcionários não é uma simples escolha pelo “caminho mais fácil” e que a empresa já implementou processos internos “custosos e difíceis” de redução de custos, inclusive com a troca de alguns fornecedores.

A diretora deixou claro em seu pronunciamento que os planos da empresa não estão sujeitos a margens para negociações. “Não podemos comprometer o processo de reestruturação para esperar uma medida do governo”, disse. Segundo ela, a situação financeira da subsidiária brasileira, deficitária há sete anos e dependente da matriz alemã, é “constrangedora”. “Se a Volkswagen do Brasil fosse exclusivamente nacional, seria concordatária”.

A chave das demissões, porém, escapa das reclamações da conjuntura nacional. Primeiro, a própria Volks adotou uma estratégia de produção direcionada para as vendas ao exterior. Hoje, 43% dos automóveis produzidos no Brasil são destinados ao mercado externo. E mesmo com os já citados esforços internos e sinais de reação do mercado - de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as exportações de automóveis brasileiros no primeiro semestre deste somaram US$ 5,57 bilhões e superaram o recorde do mesmo período de 2005 -, a empresa, segundo a diretora, não conseguiu o retorno financeiro esperado, a despeito do pico de vendas e do resultado positivo de 2004.

O nó do gargalo que ameaça os trabalhadores reside na estratégia de investimento mundial da Volkswagen. Com um histórico de 52 anos, a VW do Brasil era, até pouco tempo atrás, a que recebia o maior volume de investimentos da matriz. Hoje, a subsidiária da China já é a campeã nesse quesito. “A indústria automobilística passa por crise no mundo todo. A capacidade de produção é muito maior do que vem sendo produzido”, admitiu a diretora. Ameaças de demissões e fechamento de fábricas rondam as fábricas da Volks na própria Alemanha, na Espanha, no México. Em compensação, crescem os investimentos da empresa na própria China e no Leste Europeu (Polônia e Rússia), onde os custos são equivalentes a um terço se comparados ao Brasil. “Se não conseguirmos oferecer uma situação de conforto para o capital, perdemos o investimento”, arrematou a diretora, com todas as letras, em resposta dirigida aos poucos parlamentares presentes.

Um deles era Ivan Valente (PSol-SP), que inclusive assinou o requerimento da audiência juntamente com a deputada Dra. Clair (PT-PR). Contrariado pela ausência dos trabalhadores que haviam sido convidados para a audiência pública, Valente assinalou que a diretora da Volks preferiu o caminho das “respostas desumanizadas” e deixou de responder os questionamentos sobre o conceito de “responsabilidade social” da empresa. Uma demissão na indústria automobilística pode acabar com outros 47 empregos. “A Volks já recebeu muita ajuda, como os R$ 700 milhões de isenção de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) concedida pelo estado de Paraná, em dez anos”.

“Não é correto dizer que o problema (da Volks) se deve apenas ao governo”, afirmou Mário Barbosa, secretário de Relações de Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (TEM). “A empresa também precisa ter responsabilidade por suas escolhas”, complementou o secretário do ministério comandado hoje pelo ministro Luiz Marinho, ex-funcionário da Volks. O posicionamento de cautela não impediu o representante do MTE de acolher com bons olhos a sugestão de ampliação do Conselho Monetário Nacional (CMN), citada pelo deputado Walter Barelli (PSDB-SP) e enviada como sugestão ao presidente Lula pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). “Também estamos buscando participação maior na definição da estratégia do governo brasileiro nas negociações multilaterais na OMC (Organização Mundial do Comércio). Os resultados da rodada podem ter reflexo na questão do emprego”.

ALEMANHA E BNDES
De acordo com a assessoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a presença dos dirigentes reclamada pelo deputado Ivan Valente na audiência na Câmara Federal não foi possível por causa do desencontro de agendas entre as diversas representações dos trabalhadores da Volks – que englobam sindicatos, centrais e confederações – e pela eminência de demissões na fábrica de Taubaté. Depois de protestos e paralisações, os representantes dos trabalhadores aguardam ainda as resoluções de reunião marcada para a próxima quarta-feira (19), na matriz da empresa na Alemanha.

Os dirigentes sindicais brasileiros têm promovido articulações internacionais e participaram recentemente de reuniões com o Comitê Mundial de Trabalhadores da Volkswagen, na Alemanha, e de um encontro dos sindicatos da Volks de diversos paíse do mundo, na cidade de Puebla, no México. “O coordenador do Comitê Mundial (Bernd Osterloh, que participará da reunião como representante dos trabalhadores), tem se posicionado de forma dura e até surpreendente. Isso já é um esboço importante do que poderá sair da reunião”, colocou José Lopez Feijóo, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

A lógica da destinação de investimentos apenas de acordo com as perspectivas de lucro máximo – que tende a concentrar as atenções da empresa para outras regiões como China e Leste Europeu e foi assumida pela diretora da subsidiária nacional como motivação central pelas demissões no Brasil – tem limites, argumentou Feijóo. Se esse movimento for intensificado, a própria Volkswagen estará contribuindo para a redução do seu próprio mercado consumidor. O dirigente acredita ainda na reação da população atingida diretamente por essa lógica. “Basta ver a recente mobilização (de jovens) na França contra a retirada de direitos (na área trabalhista)”.

A Volkswagen, lembrou ainda Feijóo, produz cerca de 700 mil automóveis no Brasil e tem participação significativa no mercado nacional e internacional por causa das fábricas brasileiras. “A GM, a Ford e a Renault agradeceriam imensamente se a Volks parasse de produzir”, ironizou.

“Nos anos 80, quando a Volks da Alemanha passava por uma grande crise, quem sustentou a empresa foi o Brasil”, recordou o presidente do sindicato. “Se os governos anteriores tivessem constituído uma empresa automobilística estatal com a quantidade de subsídios e incentivos oferecidos a Volks, talvez ela já fosse uma multinacional como a Petrobras”, adicionou.

Durante a audiência pública no Congresso, os mais recentes empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) concedidos à Volkswagen – da ordem de R$ 497 milhões, com dinheiro do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT) – também foram discutidos.

Elizabeth de Carvalhaes, diretora da empresa, esclareceu que os empréstimos obedecem a uma série de cláusulas e condições. Há prestação de contas a cada 60 dias, inclusive com a necessidade de comprovação da etapa anterior para desembolso (a posteriori do investimento), e as operações passam pelo crivo de auditorias de empresas estrangeiras. Segundo ela, o financiamento de projetos de robotização para substituição de mão-de-obra, por exemplo, não é permitido. Segundo ela, recursos públicos têm financiado projetos que não têm ligação direta com as demissões, como, curiosamente, no “face lift” de modelos da Volkswagen.

Fonte: Agência Carta Maior

Última atualização: 17/07/2006 às 13:00:00
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