Um fantasma ronda o continente - o fantasma de Hugo Chávez. A velha potência está em pânico: George Bush já não dorme direito. Porter Goss, o chefe da poderosa CIA, cai em desgraça e dá a vez ao general Michael Hayden, que espionou seus próprios compatriotas; a protegê-lo o inescrupuloso embaixador John Negroponte, que controla as 16 agências de espionagem e serviços sujos dos Estados Unidos.
Ambos terão, entre outras missões, minar o governo do coronel que é visto como mais perigoso do que Fidel Castro, patinho feio há 47 anos, e que deixou mal na fita o arremedo de Tony Blair destas plagas.
Hugo Chávez é acusado de tudo que faz mal aos interesses norte-americanos. De tudo e mais alguma coisa. Atribuem-lhe o manejo de Evo Morales, que carrega 122 anos de revolta desde quando o Chile se apropriou de 500 quilômetros de costa com a amputação da província de Antofagasta.
Culpam-lhe pelos gestos de rebeldia de Nestor Kirchner, a quem socorreu na hora da briga com o FMI, investindo dois bilhões e meio de dólares nos títulos públicos da Argentina, enquanto o nosso dileto ícone dos trabalhadores não saía de cima do muro.
Falam mal dele pelo resgate dos sonhos de Simon Bolívar, inspirador de seu apoio aos pobres do Continente, inclusive aos dos arrogantes Estados Unidos: Chávez foi o primeiro a enviar ajuda para as vítimas de Nova Orleans. De quebra, mandou combustível de aquecimento para as famílias necessitadas do Maine ao Bronx e à Filadélfia.
Com sangue de índio e negro nas veias, é acusado também de fornecer petróleo a preços reduzidos a 13 nações do Caribe, inclusive Cuba, e de ter gasto 25 bilhões de dólares em ajuda a 30 países no sufoco. Nessas verbas incluem-se desde o financiamento de cirurgias oculares para os desassistidos do México até apoio em outros continentes, incluindo 4 nações africanas e a distante Indonésia.
O jogo de intrigas Na contra-ofensiva, jogam os brasileiros contra o "insurgente", com intrigas, exploração do "orgulho ferido" e uma intervenção acintosa nas relações entre nossos países. Bush vetou a compra pela Venezuela de 18 aviões à Embraer e não se falou mais nisso. Nem Lula moveu uma palha, nem chiaram os que hoje gritam na "defesa" da Empresa Boliviana de Refinação, onde a Petrobras divide sua composição acionária com as petrolíferas transnacionais.
Os agentes treinados pela CIA, que atuam conforme os relatos do ex-operador John Perkins em "Confissões de um Assassino Econômico", vão fazer de tudo para impedir a concretização da compra de 36 petroleiros por 3 bilhões de dólares de estaleiros brasileiros e a realização do fantástico projeto do gasoduto sul-americano. E nossa grande mídia diz que tudo isso é delírio do "fantasma camarada".
O presidente Hugo Chávez, que leu a "Utopia" do decapitado Thomas Moore na prisão, é perseguido pelas mudanças de atitude nos países produtores de petróleo, inclusive a Inglaterra. Alegam que as novas exigências dos produtores poderão levar ao estrangulamento das grandes multinacionais" como Exxon, BP, Royal Dutch Shell, Total, Chevron, ConocoPhillips e Eni, conforme conclusão de Daniel Yergin, presidente da Cambridge Energy Research Associates, empresa de consultoria dos EUA.
Estão com ódio de Chávez porque até países como a Rússia e a Nigéria decidiram também correr atrás do prejuízo. "Temos presenciado um retorno de um estilo nacionalista referente aos recursos energéticos típico da década de 1970" - afirmou Daniel Yergin, enquanto desmorona o retrógrado e privatizante "Consenso de Washington".
O novo golpe O centro do poder global desenvolve hoje um projeto mais bem acabado para derrubar Hugo Chávez, que tem sua reeleição garantida nas urnas, apesar de toda a grande mídia atuar livremente ao lado da elite e de sua desmoralizada oposição interna, numa conspiração ostensiva para desestabilizar o seu governo.
Com o fracasso do golpe de 2002, quando Chávez era muito menos popular do que hoje, os Estados Unidos iniciaram uma revisão perigosa do seu sistema de espionagem e intervenção nos países que não rezem por sua cartilha. Bush está com os piores índices de aprovação de um presidente nos EUA, precisa de "uma vitória qualquer" e não há como pensar na "Copa".
Em 2004, o Congresso criou uma superagência de "inteligência" para controlar as 16 existentes na área. Para comandá-la, Bush trouxe do Iraque o embaixador John Negroponte, "um dos mais importantes terroristas internacionais" segundo Noan Chomsky, professor do Instituto de Tecnologia do Massachusetts e autor de "Hegemonia ou sobrevivência. A estratégia imperialista dos EUA", distribuído pelo The New York Times Syndicate.
Em fevereiro passado, Negroponte aterrorizou os parlamentares de Washington sobre o "perigo Hugo Chávez". Tal foi seu depoimento que a congressista Bárbara Lee, democrata da Califórnia, concluiu que o projeto de um novo golpe já estava na incubadora da CIA: "Espero que este governo reconheça que invadir países na base de nossa visão sobre o que deveria ser feito é algo profundamente antidemocrático" - ponderou Bárbara Lee.
Acusam Hugo Chávez também de influir sobre os 500 milhões de latino-americanos: 60% das pessoas na América Latina têm hoje uma visão negativa dos EUA; e só 34% confiam na liderança de Washington, segundo o "Latinobarómetro". A visão positiva dos EUA no Brasil passou de 56% no ano 2000 para 34% em 2003, segundo o Pew Center.
Garantem ainda que ele está por trás de candidatos nacionalistas nas eleições do Peru (segundo turno em 28 de maio), México (julho), Equador (outubro) e Nicarágua (novembro).
E para terminar por hoje fique com o comentário de Stephen Johnson, da conservadora Heritage Foundation: Hugo Chávez "caminha rápido para se tornar o próximo Fidel Castro, um herói das massas decidido a opor-se a cada iniciativa dos EUA. Ele conseguiu fazer o que Fidel nunca pôde. Fidel nunca teve uma fonte de renda independente como a de Chávez. O venezuelano preenche um vazio que Fidel lhe deixou, liderando as nações não-alinhadas".
Fonte: Tribuna da Imprensa |