Dentre as várias atividades que aconteceram na Universidade Federal de Pernambuco, sede do II Fórum Social Brasileiro, a mesa que tratou sobre a Chamada Contra a Pobreza no Brasil - Resgatando a Agenda de Combate à Pobreza foi uma das mais procuradas. Num auditório lotado, estudantes e representantes de movimentos mostravam interesse em encontrar estratégicas para um mundo mais justo e igualitário.
Iara Pietricovsky, do Instituto de Estudos Socio-econômicos (Inesc), estava lá para explicar como é possível criar uma rede de organizações que possa ser agente dessas mudanças. Em entrevista à Adital, ela fala mais sobre o assunto.
Adital - Como vem sendo construída, no Brasil, a Chamada Global Contra a Pobreza? Iara Pietricovsky - A Chamada Global vem desde o ano passado. Nós estamos tentando ampliar ao máximo possível a participação de movimentos sociais que tenham o compromisso efetivo com mudanças na estrutura da tomada de decisões, no uso do dinheiro público, enfim na busca de alternativas de um outro mundo possível - que é o grande chamado do Fórum Social Mundial e que é a base da nossa campanha. É uma Chamada no sentido de que as pessoas participem politicamente e ativamente com sua voz, que elas sejam sujeitos das ações sociais dos governantes no plano municipal, estadual e federal.
Adital - Como está a agenda das atividades relacionadas à Chamada? Iara Pietricovsky - No ano passado nós fizemos três grandes mobilizações em momentos diferentes. Uma na reunião do G-8 (cúpula dos 8 países mais ricos do mundo), na Escócia; outra 5 anos após a Conferência das Metas do Milênio; e, depois, na reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC) em Hong Kong. Esse ano teremos a data que vai de 17 de setembro à 17 de outubro, onde todos os países terão manifestações da Chamada Global Contra a Pobreza, da aliança pela igualdade. As atividades contarão com os movimentos e organizações sociais, com todos os setores da sociedade e todas as pessoas que queiram integrar as suas ações com a Chamada.
Adital - Na prática como serão essas atividades? Como será feito esse diálogo com os movimentos e organizações sociais? Iara Pietricovsky - Do ponto de vista da nossas atividades, nós vamos estar trabalhando, contruindo conteúdos, falando da questão da desigualdade, tentando divulgar por meio de rádio, internet e da mídia em geral, com o objetivo de atingir os movimentos de base. No ano passado tivemos um resultado muito bom. Vamos intensificar essas chamadas todas. Nesse mês da manifestação vamos acentuar mais a nossa Chamada. Vamos fazer esses movimentos serem ouvidos.
Adital - A Chamada é muito focada nos movimentos e organizações sociais. Como é que fica o papel do Estado? Iara Pietricovsky - Evidemente, que a gente chama o Estado, o Governo, para conversar. Vamos nos parlamentos, tentamos acionar o sistema jurídico para que ele faça cumprir determinações importantes. A gente questiona o Supremo Tribunal no sentido das gestões dos Governos em realizar, de fato, por exemplo, a execução orçamentária que eles não realizam. Isso é todo um processo, ou seja, a gente entende que tem várias dimensões e vários níveis que temos que atuar para que os setores privilegiados e o Estado, em geral, compreendam a importância de reavaliar a maneira de como são conduzidas as políticas públicas e a alocação dos recursos públicos. Essa é uma primeira frente da nossa ação e para isso nós precisamos muito de mobilização, de gente na rua, de mídia, precisamos de um contexto no qual as pessoas entendam que isso é um mantra necessário. Mudar esse mundo é necessário.
Adital - E como tem sido o apoio dos movimentos? Iara Pietricovsky - O primeiro momento foi complicado. Foi uma agenda de cima para baixo. O grande passo que estamos tendo agora é conseguir reverter essa lógica que foi meio imposta pela Europa e pelas instituiçõs inter-governamentais. Nosso processo, nossa realidade é diferente. E começamos a trabalhar na construção coletiva, processual, de capilaridade. Esperamos, cada vez mais, mais apoio dos movimentos. A Chamada não é nada sem eles.
Para saber mais: www.chamadacontrapobreza.org.br
Fonte: Adital |