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Notícias

  30/01/2006 

EUA condenados na Corte Internacional contra Violência Patriarcal

Os Estados Unidos foram um dos principais condenados, nesta sexta-feira (27), pela Corte Internacional de Mulheres contra a Violência Patriarcal do Neoliberalismo, organizada por diversas entidades e movimentos feministas, como parte do VI Fórum Social Mundial. A ingerência do governo norte-americano na política de outros países, as constantes tentativas de desestabilizar a Venezuela, a extradição de presos políticos colombianos, a manipulação da imprensa, o perverso bloqueio econômico a Cuba, a violação de direitos humanos dentro e fora do país, a invasão do Iraque e o genocídio da população iraquiana provocam grandes sofrimentos a milhões de mulheres, principais vítimas das inúmeras formas de violência geradas e aprofundadas por essas ações.

Haitianas, norte-americanas, iraquianas, argentinas, uruguaias e equatorianas, entre outras, deram testemunhos pessoais e emocionados sobre os efeitos da violência patriarcal e do neoliberalismo em suas vidas, de suas famílias e de seu povo. Mulheres do mundo todo, em especial da América Latina, compartilharam suas histórias com um grupo de jurados e fizeram um apelo para que essa máquina capitalista pare de produzir violência.

As colombianas deram destaque ao sofrimento de mulheres que faziam parte do partido de esquerda União Patriótica (UP), espécie de braço político das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), que buscava uma solução democrática para os conflitos. Nas últimas décadas, ele sofreu um verdadeiro genocídio político de seus membros, com cerca de cinco mil de seus integrantes assassinados. A colombiana Trinidad Ávila, por exemplo, líder campesina e militante da UP, teve seu companheiro assassinado e passou a ser perseguida por militares e paramilitares. Sobreviveu a uma bomba em sua casa, onde vivia com os filhos, e em seguida foi seqüestrada pelo exército. A sindicalista Amparo Torres, por sua vez, na UP desde sua criação, precisou sair do país com os filhos para ir viver como refugiada política no Canadá. Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos EUA, a insurgência colombiana passou a figurar numa lista canadense de terrorismo, e a perseguição cruzou as fronteiras: ela passou a ser vigiada pelo serviço de inteligência do Canadá. Ela não pôde vir ao Fórum Social Mundial dar seu depoimento porque tem que comparecer a audiências que vão decidir o seu destino.

Em Cuba, as mulheres são as principais atingidas pela guerra política, militar e psicológica e pelo bloqueio econômico imposto pelos EUA desde 1962. A falta de alimentos por conta dessa restrição comercial é um foco de permanente tensão que atinge em especial as cubanas, máximas responsáveis pela alimentação familiar. A base norte-americana de Guantánamo, em Cuba, faz com que as mulheres da região sejam cotidianamente agredidas e provocadas pelos soldados. A escassez de petróleo, limita os serviços de transporte, a construção de moradias e creches, o que restringe a possibilidade das mulheres trabalharem. “As cubanas resistimos a esse sofrimento por quase quatro décadas porque antes de 1959 éramos discriminadas e exploradas, éramos a maior parte dos analfabetos e não participávamos das tomadas de decisão”, diz Maira Albarez, da Federação de Mulheres Cubanas.

As iraquianas denunciaram as humilhações impostas pelos americanos em nome da democracia; as haitianas falaram sobre os efeitos na vida delas de um país devastado, miserável e sem liberdade; as argentinas contaram sobre as marcas da ditadura, com suas torturas e assassinatos, que ainda persistem no corpo e na alma das mulheres do país; as indígenas da Guatemala relataram a tentativa de destruição de sua cultura ancestral.

Os testemunhos foram divididos em quatro blocos temáticos: o do neoliberalismo, que discutiu o salário precário da maioria das mulheres, a perda do emprego e outros assuntos ligados ao efeito dessa ideologia na vida delas; a violência racista, contra mulheres indígenas e afro-descentes, praticamente excluídas da sociedade; guerra e violência armada, com depoimentos sobre suas terríveis conseqüências nas mulheres, vítimas de estupros e outras formas de agressão; discriminação na política e na sociedade, as formas em que ela se manifesta nos partidos políticos, movimentos sociais e em outros espaços, seja por orientação sexual ou qualquer outro motivo.

JULGAMENTO SIMBÓLICO

Mas os Estados Unidos são apenas um dos representantes daqueles que foram condenados por essas histórias de injustiça, discriminação, opressão, e marginalização de mulheres e meninas. “Condeno o patriarcalismo feminicida a desaparecer. Condeno o capitalismo à pena capital e a sociedade a tomar medidas urgentes para transparecer os crimes contra mulheres, repará-los e fazer justiça, por meio de medidas radicais e de oferecer às mulheres oportunidades para pagar a dívida histórica que a humanidade tem com elas. Até chegar o dia em que as mulheres serão parte integrante dela”, sentenciou Irene León, da Agência Latino-americana de Informação (Alai), uma das juízas na Corte Internacional.

Segundo ela, capitalismo e patriarcalismo são “farinha do mesmo saco”. Ambos geram, produzem e reproduzem o sexismo e vêem como natural a exclusão. Enquanto o primeiro se sustenta na lógica do predomínio e fortalecimento do capital, o segundo o faz sobre uma ordem hierárquica e androcêntrica. Mas os dois repulsam a autodeterminação e a autonomia dos corpos, das pessoas e povos, e utilizam a violência como forma de legitimar as relações desiguais pessoais, econômicas, sociais, culturais e geopolíticas. O cerceamento, segundo ela, é condição necessária para a concentração do capital, do poder e das decisões.

As mulheres puseram em evidência, durante o julgamento, que o imperialismo de hoje é igual ao colonialismo de ontem: tem uma ideologia de poder, dominação, possessão e coerção. “Enquanto os homens têm aspirações megalomaníacas e querem chegar ao topo da pirâmide, na base dela abundam as mulheres”, compara Irene.

Essa foi, na verdade, a 29a edição da Corte Internacional de Mulheres, que já ocorreu em vários países, abordando temas diversos sob uma perspectiva de gênero. Dessa vez, ela foi convocada pelo grupo de estudos da América Latina do Instituto de Filosofia de Havana, em parceria com a Marcha Mundial de Mulheres, a Rede Latino-americana de Mulheres Transformando a Economia (Remte), Federação de Mulheres Cubanas, o Centro Martin Luther King de Havana e outras organizações e redes do movimento de mulheres da América Latina.

O objetivo era realizar um julgamento simbólico para denunciar os crimes patriarcais contra a mulher, reforçados pelo neoliberalismo, impunes e invisíveis, e criar propostas de luta e resistência contra isso. A condenação da Corte Internacional das Mulheres, formada por jurados de diferentes continentes, tem um conteúdo ético e moral. Além de dar visibilidade a essas situações, pretendem que esse seja um instrumento educativo e de integração entre as mulheres de diferentes países. Assistindo a esses depoimentos, as feministas podem se sensibilizar com as histórias, se conscientizar dos problemas que outras mulheres vivem e se unir na busca de um mundo sem violência e sem opressão.

“Estamos lutando cada uma em separado, em sua região, em seu grupo. Desse jeito, é pouco o que se pode avançar, mas quando nos juntamos todas, há alguma força que potencializa a luta, como no testemunho das mulheres dos EUA. Como se pode imaginar que lá existem mulheres pobres que morrem na rua, quando os filmes nos vendem a imagem de que é um paraíso lá?”, questiona a venezuelana Carmen Borquez, da rede Intelectuais em Defesa da Humanidade, uma das juradas da Corte. Isso fez com que as mulheres presentes percebessem que mesmo quando a mulher está no centro do Império também sofre opressão. O país em que elas vivem é apenas um fator que pode agravar ainda mais a situação. “Há uma condição universal que nos une e que é necessário reconhecer isso e assumir um compromisso com a que também sofre”, completa.

Fonte: Agência Carta Maior

Última atualização: 30/01/2006 às 12:13:00
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