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Notícias

  23/01/2006 

Jean Ziegler: 'O Brasil tem hoje o papel que foi da Europa'

Há 30 anos, o sociólogo, professor e escritor suíço Jean Ziegler escreveu seu primeiro best seller - A Suíça Acima de Qualquer Suspeita - tornando-se o primeiro combatente contra o segredo bancário suíço. Essa luta levou-o à política e se tornou deputado federal, embora fosse detestado pela maioria dos suíços e considerado traidor por lutar contra os bancos. Mas em Genebra, se tornou um símbolo e logo seu prestígio de combatente pelo Terceiro Mundo se alastrou pela África e América Latina.

Na juventude, tivera o desejo de se juntar aos revolucionários em Cuba, mas foi o próprio Che Guevara quem, num encontro em Genebra, lhe mostrou que deveria permanecer na Suíça - "seu lugar é aqui, onde está a cabeça da hidra da finança capitalista mundial". Hoje, relator especial da ONU, toda Suíça reconhece ser Ziegler seu cidadão mais conhecido e respeitado em todo mundo.
 
No Rio de Janeiro, onde veio entrar em contato com ONGs para avaliar os resultados do Fome Zero, Ziegler afirma ser possível se acabar com a fome no mundo, se confessa surpreso com a campanha da imprensa contra o PT e Lula, ressalta o papel do Brasil como líder do Terceiro Mundo sem o qual não se poderá fazer funcionar o Eixo do Bem na América Latina. Depois de encontrar intelectuais de esquerda, Ziegler acha ser importante a reeleição de Lula, mas que sua credibilidade depende de um retorno às reformas estruturais internas, de uma auditoria da dívida e de uma mudança da política econômica. Esteve na Geração Editorial, em São Paulo, para acertar a tradução do seu último livro - O Império da Vergonha. Na mesma editora, é autor do prefácio do livro O Dinheiro Sujo da Corrupção.

- Seu último livro, O Império da Vergonha, destaca os fatores determinantes de uma nova miséria mundial...
 
- Esse livro, que se dirige principalmente à opinião pública ocidental, mostra que, todos os dias, cem mil pessoas morrem no mundo  de fome ou de suas consequências imediatas. A cada quatro segundos, morre de fome uma criança de menos de dez anos. A cada quatro minutos, uma pessoa fica cega por falta de vitamina A e 856 milhões de pessoas, uma entre seis pessoas do planeta, vivem uma subnutrição crônica. Porém, essas mesmas estatísticas da ONU informam que a agricultura mundial, tal como é hoje, poderia alimentar normalmente com 2700 calorias por dia, doze bilhões de seres humanos, ou seja o dobro da atual população mundial. Por isso, pode-se dizer que cada criança morta de fome é uma criança assassinada. As consequências do capitalismo globalizado não são apenas criminosas como absurdas - ele mata, porém mata sem necessidade. Foi a diplomacia brasileira que se tornou a cabeça dos países do Hemisfério Sul, reeditando em um certo sentido Bandung, quando em 1956, na Indonésia, os países do Hemisfério Sul criaram o movimento dos países não alinhados. Até agora os países do Sul não tinham líder, porém agora com Celso Amorim e Lula é o Brasil o interlocutor mais credível. A Índia ainda tem muitos problemas e miséria, a China é uma ditadura e o Brasil é uma democracia viva.
 
- Existe uma maneira de se acabar definitivamente com a fome no planeta, já que os alimentos são suficientes?
 
- Bastará se colocar em vigor os princípios da Carta das Nações Unidas e que os direitos econômicos, sociais e culturais sejam reconhecidos, pois atualmente na Declaração dos Direitos Humanos são principalmente reconhecidos os direitos civis e políticos. São importantes os direitos de reunião, da imprensa, etc., vindos da Revolução Francesa e da Declaração de Filadélfia da independência americana, porém, esses direitos não são mais suficientes. Quando as pessoas estão morrendo de fome não serve para nada lhes dar um título eleitoral porque ninguém pode comer isso. Os novos direitos sociais, econômicos e culturais, dos quais o Brasil é defensor, o reconhecimento do direito à alimentação, à saúde e à escola tudo isso é o combate do futuro. Hoje os que detêm o maior poder no mundo são as sociedades privadas transcontinentais ou multinacionais. No ano passado, quinhentas dessas empresas controlavam 52% do produto mundial bruto produzido no planeta, tanto capitais, mercadorias, como serviços e patentes. Essas sociedades transcontinentais têm um poder que nenhum imperador, rei ou Papa jamais teve na História da humanidade. E elas funcionam unicamente com a maximalização do lucro. São monstros frios e para civilizar essa selva do capitalismo é preciso o reconhecimento universal dos direitos econômicos, sociais e culturais.
 
- E esses direitos deveriam ser colocados na Constituição de cada país?
 
- Exatamente e cada país deveria assegurar esse mínimo existencial constitucional para cada cidadão. E isso é alguma coisa realizável, mesmo se pode tomar algum tempo. O combate contra a globalização deve ser feito dentro dos Parlamentos para que esses direitos, como o da alimentação, figurem em cada Constituição e que o nmão cumprimento possa ser arguido diante dos tribunais.
 
- O Brasil tem o direito à alimentação na Constituição?
 
- Sim, é o artigo 227 da Constituição.
 
- Mesmo os adversários de Lula reconhecem as Relações Exteriores como o forte do seu governo...
 
- Os brasileiros não têm idéia da importância do papel do Brasil nas Nações Unidas contra o imperialismo americano. O Brasil tem hoje o papel que antes era o da Europa - democracia, independência, justiça social planetária, comércio equitável, direitos humanos, um papel que era o da Europa, mas hoje quase completamente inexistente, uma Europa quase totalmente avassalada aos americanos.
 
- Com sua experiência européia, onde já houve muitos escândalos, na Alemanha, na França, com o financiamento de partidos, como vê, como um europeu de esquerda a atual crise brasileira?
 
- Acho que certos setores da sociedade política brasileira incham e utilizam essas ilegalidades cometidas com a compra de votos e etecetera. Mas quando se olha de perto, percebe-se que se trata de uma tempestade num copo d´água, pois o esssencial é o funcionamento das instituições e que os membros do PT não praticaram o enriquecimento pessoal. Existe um clima de corrupção em certos países africanos, mas o que houve no Brasil nada tem a ver com o enriquecimento pessoal. Seria absurdo se colocar nas costas de Lula um responsabilidade por corrupção pessoal. Como europeu, habituado com as estratégias das multinacionais na África e outras regiões, acho que se trata de uma falsa crise, que não merece o termo de corrupção. Uma crise criada pelos adversários políticos e de reformas.
 
- Existe alguma relação com o caso de Paulo Maluf, corrupção pora enriquecimento pessoal ?
 
- Na Suíça foram bloqueadas pela justiça as contas de Paulo Maluf. Para mim, corrupção é Maluf - um prefeito de São Paulo que desvia centenas de milhões de dólares, transfere para a Suíça e Jersey, cria sociedades offshore, que nega, mente e sabota a ajuda judiciária internacional. Isso é corrupção, a gangrena de um Estado democrático, que deve ser combatida. Aliás, acaba de ser publicado no Brasil um excelente livro que retraça todo o caso Maluf é Dinheiro Sujo da Corrupção. Mas nessa época das denúncias das contas secretas de Maluf pouca coisa se lia a respeito na imprensa, nada a ver com o desenfreamento da imprensa dos dias de hoje, onde não há corrupção mas falta política. Situação agravada pela inexistência no Brasil de uma imprensa importante de esquerda, como ocorre em quase todos os países europeus.
 
- Neste ano, fará 30 anos seu primeiro livro, o best-seller Uma Suíça Acima de Qualquer Suspeita. Pioneiro na luta contra o segredo bancário, acha que a situação melhorou?
 
- Não, regredimos, a situação é pior que antes. Houve algumas leis que forçam a identificação dos detentores das contas, mas são leis cosméticas. A Suíça continua sendo o país mais rico do mundo por renda per capita. A suíça é uma velha democracia mas a extraordinária riqueza de seus bancos vem principalmente dos capitais foragidos, da evasão fiscal e do capitais do crime organizado internacional. Ao mesmo tempo, o circuito financeiro, a globalização, a instrumentalização dos cyber space unificados e a rapidez da circulação dos capitais com a Internet e as praças off shore deram vantagens extraordinárias aos fraudadores. Não é mais possível nenhum controle. Houve uma proliferação dos off-shore como Bahamas, Curaçao, Jersey, que escapam a qualquer controle político e social. Nas sociedades off-shore é difícil saber quem é o verdadeiro proprietário.
 
- Porém, suas denúncias ajudaram a alertar a União Européia?
 
- A UE acordou e exigiu da Suíça um controle de seus cidadãos em matéria de evasão fiscal, mas o que escapa é a fuga de capitais de países não europeus e assim as elites corrompidas do Terceiro Mundo podem enviar utilizar a Suíça como plataforma para lavagem de seus capitais da corrupção.
 
- Em matéria de evasão fiscal, como vê a idéia de um movimento para se estender aos residentes em países pobres ou emergentes, como o Brasil, o desconto do imposto de renda nas contas secretas suíças, como já se faz na UE?
 
-  Essa exceção européia funciona porque existe uma unidade dos países europeus sob a autoridade da UE, mas para a grande maioria dos 191 países do mundo não existe uma autoridade central que exija o cumprimento do desconto de renda nas contas bancárias suíças.
 
- Mas se o Brasil e o G-20 exigissem?
 
- Nesse caso seria possível. Coletivamente, se o G20 tratasse não só de questões comerciais mas da evasão fiscal isso seria magnífico, pois a evasão fiscal empobrece os países e esse dinheiro poderia criar as infraestruturas sociais. Se o grupo G20 decide lutar unido contra a evasão de capitais, isso lhes dará condições de fazer pressão sobre a Suíça.
 
- Se como conta nos seus últimos livros, o poder econômico das multinacionais é mais forte que o poder político , qual a margem de manobra dos novos governos de esquerda na América Latina?
 
- O que se passa hoje na América Latina é entusiasmante, é o continente que se agita. Por isso é que as próximas eleições brasileiras são tão importantes. O eixo Chaves, Fidel, Morales e o Chile, só pode se reforçar e impor coletivamente uma política anti-globalização unicamente se contarem com o Brasil. O Brasil é uma grande potência econômica e dele depende o destino da América Latina. Esse novo Eixo do Bem que Chavez quer construir precisa do Brasil. Por isso, as próximas eleições brasileiras são de importância capital para todo o continente e para todo o Hemisfério Sul. Se hoje se assiste a uma tal difamação do governo de Lula é porque o grande capital especulativo compreendeu que é preciso uma derrota de Lula nas eleições, para que fracasse o Eixo do Bem. O que se passa hoje no Brasil ultrapassa em importância o próprio Brasil porque o Brasil detém em suas mãos o destino do continente. O Brasil é uma potência mundial.
 
- Mas se a política externa brasileira é de esquerda, sua política interna é de sujeição aos interesses da direita, idêntica à dos governos anteriores ...
 
- O professor Emir Sader e outros grandes intelectuais do Forum Social Mundial acham que o governo brasileiro cometeu um erro perigoso se isolando do povo. A promessa era de uma política prioritária de reformas estruturais internas, como a reforma agrária e o aumento do poder de compra das classes trabalhadoras. Porém, ao dar prioridade ao pagamento da dívida, em lugar de uma auditoria da dívida, como dizia a plataforma eleitoral do PT, o presidente Lula colocou em perigo sua reeleição. Pois isso não consegue ser contrabalançado por sua política externa que é notável. Espero o primeiro discuros do Ano Novo de Lula, onde ele deverá retornar à plataforma de 2002, para realizar as reformas estruturais. Ainda é tempo para que ele retorne à realização das promessas de 2002.
 
- Acha que ele ainda será crível ?
 
- Como diz Sader, se ele fizer isso, será totalmente credível, não será mais difamado e todas essas histórias de corrupção desaparecerão.  Uma coisa periogosa é Lula se distanciar ou separar do PT. Quando se lê os jornais brasileiros, nos quais Lula diz não ser o PT e que o PT fez besteiras, que o PT se corrompeu, isso é perigoso para sua credibilidade e para a mobilização. 
 
- Como vê a situação mundial atual com a hegemonia americana, ocupação do Iraque e terrorismo islamita?
 
- O terrorismo é horrível. Não se deve minimizar o terrorismo, com civis mortos, bombas no metrô de Londres, nada excusa o terrorismo. Porém, dar prioiridade absoluta à segurança de aos investimentos militares na guera contra o terrorismo como fazem os EUA e a maioria dos países europeus é uma total cegueira. Porque o terrorismo nasce da miséria, da fome, da humilhação, portanto para se vencer o terrorismo é preciso de vencer a fome e as epidemias. Nas Nações Unidas, todas as organizações de ajuda humanitária, de ajuda ao desenvolvimento perdem milhões de dólares no orçamento porque os Estados têm outra prioridade - comprar armas, dar maior segurança aos aeroportos, todos os investimentos de segurança. Mas deveria ser ao contrário, pois só a guerra contra a fome pode vencer o terrorismo. Ora, os EUA reinstauraram a tortura, recusam os direitos humanos, recusam respeitar a Carta das Nações Unidas, reivindicam o direito de fazer guerras preventivas e reduzem toda obrigação de ajuda ao desenvolvimento. E com a privatização dos setores públicos privam o Estado de seus instrumentos de governo. A privatização é uma gressão contra os interesses populares.
 
- Amigo de Shimon Peres e dos líderes palestinos, como foi de Arafat, como vê o futuro na região com a saída de Ariel Sharon do governo israelense?
 
- A única solução possível e durável para a paz no Médio Oriente é um Estado palestino e o retorno ao plano de partilha e de fronteiras da resolução de novembro de 1947 da ONU e o reconhecimento do retorno dos refugiados palestinos,  a única via legal segundo o direito internacional. É preciso se por um fim à ocupação militar israelense e se negociar entre o governo israelense e palestino, sob a vigilância da ONU, a partilha do território do mandato britânico. Senão a tragédia vai continuar. O Estado palestino deve ser criado o mais rápido possível, por negociação e não por ato unilateral. Todas as colonias em território palestino devem desaparecer e Jerusalem deve ser a capital dupla da Palestina e de Israel. Todo o problema  é como mobilizar a pressão da opinião pública internacional e da comunidade de Estados sobre o sucessor de Sharon para que, enfim, ele aceite o plano de partilha de 1947.
 
- Como você vê a situação, se em lugar de Peres for Natanayou?
 
- Espero profundamente que seja Peres ou um de seus amigos. Ele foi um dos artesãos e quem assinou os Acordos de Oslo com Rabin, a única esperança nos últimos doze anos.  A opção que vai se oferecer em março será entre o Likud e o Partido Trabalhista. Prefiro os artesãos de Oslo aos seguidores do Grande Israel. Se for Natanayou será uma tragédia total.
 
- Mas por sua vez, em janeiro haverá a escolha dos palestinos entre o Hamas e o Fatha. E se for o Hamas?
 
- Acho que o Hamas deve participar das eleições se elas forem realizadas. Que esse movimento de resistência armada se transforme num partido político será um progresso. Quanto à aceitação da existência de Israel, acho que Hamas vive a mesma situação da OLP, que, durante muito tempo, queria o fim de Israel. O Hamas não mudou ainda sua carta, como a OLP no congresso de Argel, mas se entrar para o conselho legislativo palestino ou mesmo na maioria do Parlamento palestino que elegerá o presidente, seus líderes irão se render à evidência e aceitar a existência dos dois Estados, pois não existe absolutamente outra solução. Ora, a União Européia tem uma grande responsabilidade, pois tem os meios econômicos para forçar Israel a aceitar um Estado palestino nas fronteiras de 1947. Agora, porque é agora o momento de crise e do recomeço do debate sobre essa questão. Sharon dizia não aceitar negociações, mas que iria se desengajar unilateralmente, manter as principais colônias na Cisjordania, construir um muro e que os palestinos poderia criar um Estado com o que lhes reste. Mas essa política do desengajamento unilateral e salvaguarda das colônias terminou com Sharon. Voltamos ao ponto zero e , em março, os isralenses terão de escolher entre o Grande Israel do Likud e a solução dos trabalhistas, a da criação dos dois Estados com fronteiras itnernacionais seguras.
 
- Acredita numa prorrogação do seu mandato de relator da ONU, se os EUA e Israel reclamam sua cabeça?
 
- Nunca se pode saber do resultado antes da votação, mas na última vez, há três anos, em abril 2003, meu mandato foi prorrogado com os votos da grande maioria dos países do Hemisfério Sul e da Europa, apesar dos ataques dos EUA. Espero que o mesmo se repita em abril, mas só estarei certo depois da votação. E devo muito ao apoio do Brasil.
 
Fonte: Correio do Brasil

Última atualização: 23/01/2006 às 11:11:00
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