Ruas estreitas, uma mistura de terra, pedras e esgoto. Casas minúsculas, erguidas pelo esforço de homens, mulheres e crianças, todos descendentes de indígenas aymará. Nos muros da pequena cidade conhecida como Villa Ingenio, distrito de El Alto - região metropolitana da capital La Paz - , está estampada a indignaçao e o sofrimento pelos anos de exploração estrangeira. “Fora empresas transnacionais. Viva a dignidade e a soberania do povo boliviano. Queremos nossos recursos naturais de volta.”
Em meio ao frio intenso do altiplano boliviano, essa é apenas mais uma comunidade indígena que vive sem água e passa fome. Como as cerca de 50 famílias que sobrevivem do lixo produzido por El Alto, hoje com aproximadamente 800 mil habitantes. Com seu trabalho, alimentam a fome de um imenso depósito a céu aberto que contamina rios, lençóis de água e divide espaço com mortos e vacas que descansam no cemitério local. “A prioridade dessas pessoas que vivem aqui é sobreviver”, diz Leonardo Bautista Peralta, com lágrimas nos olhos. Entre as inúmeras montanhas que se aproximam da Cordilheira dos Andes, lhamas famintas compartilham com moscas e hortas totalmente contaminadas o cheiro insuportável de toneladas de lixo.
NEGÓCIOS E POBREZA Na Villa Ingenio, está localizada uma base da empresa Águas del Illimaní, subsidiária da transnacional francesa Suez, responsável pelo fornecimento de água e tratamento de esgoto das cidades de El Alto e La Paz. Responsabilidade que, de fato, só existe no contrato, com suas letras mortas e hipócritas. A menos de 100 metros da empresa, cerca de 20 casas sobrevivem sem uma única gota de água potável. O esgoto corre a céu aberto, contaminando os poucos rios que a empresa francesa deixou para a comunidade sobreviver. “O serviço é inexistente, as tarifas são dolarizadas (reajustadas e cotadas de acordo com a moeda estadunidense) , o que é proibido por lei, e além de tudo há cláusulas no contrato que garantem uma rentabilidade de 13 % ao ano para a empresa”, denuncia Oscar Olivera, um dos fundadores da Fundação Abril, organização que trabalha com meio ambiente e serviços básicos na cidade de Cochabamba.
A empresa francesa está na Bolívia desde 1997, quando a Superintendência de Águas (Ministério) outorgou a concessão dos serviços de maneira pouco transparente e duvidosa. “O processo foi vergonhoso. A Águas del Illimaní apresentou o projeto e, no dia seguinte, a Superintendência o aprovou. O mais grave é que não houve concorrência”, diz Carlos Crespo, diretor da área de meio ambiente da Universidade San Símon, localizada em Cochabamba. Em 2003, Crespo analisou o contrato entre Águas del Illimaní e a Superintendencia junto à Universidade de New Castle (Estados Unidos). Dias antes da concessão ser outorgada, a empresa francesa e a Superintendência de Águas já começavam a encher os bolsos com o dinheiro do povo alteño. “Antes mesmo de o contrato ser assinado houve um aumento de 30% a 50% das tarifas de água”, completa Crespo.
PROTESTOS As diversas mobilizações e bloqueios realizados nos últimos anos fizeram com que o então presidente Carlos Mesa fosse obrigado a assinar um decreto, em janeiro de 2005, determinando o rompimento do contrato com a Águas del Illimaní. No entanto, o ato entrou para a história como jogo de cena, pois inexplicavelmente a transnacional continuou a responder pelos serviços de água e esgoto. A expulsão da empresa foi uma das reivindicações dos protestos que resultaram na queda de Mesa, em junho de 2005, e na ascensão de Eduardo Rodriguez. O novo presidente reafirmou o compromisso de romper com a transnacional, mas nada foi feito. E a empresa francesa continua tirando o dinheiro que a população não tem. Uma simples ligação para qualquer casa de El Alto receber água tratada custa 155 dólares (cerca de R$ 350). Vergonhoso, se considerarmos que a média de salário do povo alteño não ultrapassa os 50 dólares (aproximadamente R$ 113). “As pessoas não têm dinheiro para pagar pelos serviços. Por isso, consomem água contaminada de rios e poços da região”, explica Beatriz Bautista, ativista política do distrito. A cada semana uma criança alteña apresenta problemas de saúde relacionados ao consumo de água contaminada. “E a empresa ainda tem coragem de afirmar que seus serviços atendem a quase 100% da cidade”, argumenta Abel Mamani, presidente da Federación de Juntas Vecinales de El Alto (Fejuve).
Pobreza com corte étnico A questão da água é apenas mais um problema que afeta diretamente os indígenas, maioria no país. Por toda a Bolívia, nota-se a pobreza em que vivem os índios. Espalhados pelas ruas de cidades como Cochabamba, Santa Cruz, El Alto e La Paz, sobrevivem do comércio. O estado em que se encontra a sociedade indígena atual é fruto da exploração histórica de espanhóis, ingleses e estadunidenses, que aqui estiveram e saquearam - e insistem em saquear - os recursos naturais do país, como a água, o gás e a prata. Deixaram mortos, sangue e órfãos. “Na Bolívia, a dignidade tem um preço e o pior é que temos que pagar em dólares. Nossos fi lhos estão sendo mortos aos poucos. Se as coisas continuarem assim, no futuro não terão água, natureza, vida”, completa o boliviano Leonardo Bautista. Fonte: Jornal Brasil de Fato
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