Os Estados Unidos estão descontrolados. O presidente do país, George W. Bush, governa sem levar em conta os interesses de seu povo. Suas decisões beneficiam apenas as grandes corporações, que investem "rios de dinheiro" para garantir a eleição de seus candidatos. A população estadunidense está à margem das decisões do governo e, o que é mais dramático, não quer participar da política de seu país.
O geógrafo Richard Peet considera que a alienação do povo dos Estados Unidos permitiu ao "grupo fascista", liderado por Bush, chegar ao poder. "As pessoas não concordam com (a política do governo), mas seu protesto não é mais do que ir para casa ligar a televisão e se desligar da política", diz. Peet esteve em São Paulo (SP) participando de seminários sobre a política externa estadunidense.
Ele afirma que a orientação do governo Bush tem duas influências: o neoconservadorismo e o neoliberalismo. O primeiro é um conjunto de valores, de acordo com os quais os Estados Unidos são um modelo de democracia, que deve ser imitado, mesmo à força, por todos os países. O segundo é uma política que visa a abrir as economias do mundo para a voracidade dos investidores estadunidenses.
Brasil de Fato - Na Argentina, em novembro, Bush foi alvo de manifestações. No Brasil, em escala menor, também houve protestos. Essas situações têm sido recorrentes, por onde quer que ele vá. Qual o efeito disso na opinião pública estadunidense? Richard Peet - Nos Estados Unidos, a maioria se opõe à guerra do Iraque, de acordo com pesquisas de opinião que medem de modo bastante superficial as atitudes da população. De qualquer modo, a superficialidade é um bom modo de analisar os estadunidenses. Estão tão consumidos pelo consumo que não têm mais do que o mínimo em sentimentos políticos. Se você perguntar o que pensam, vão dizer que se opõem à guerra. Se quiser saber o que vão fazer em relação a isso, responderão: "Quero ir para casa assistir a jogos de futebol americano". Essa é a natureza das pessoas consumistas. São rasas, não têm pensamentos profundos. Suas opiniões lhes foram impostas - nunca realmente pensaram sobre elas. Os EUA são um país de pessoas alienadas, que nunca fazem nada em relação ao que pensam. Isso facilita a ação do grupo fascista que atualmente governa. A filosofia dos governantes é a dominação neoconservadora. As pessoas não concordam com isso, mas seu protesto não é mais do que ir para casa ligar a televisão e se desligar da política. As notícias importantes sobre o Iraque são postergadas para não atrapalhar os jogos de futebol americano, muitas vezes nem são veiculadas. E ninguém protesta, pois os estadunidenses não se preocupam se cem iraquianos foram assassinados ou dez soldados de seu próprio país morreram. Se estiver passando um boletim de notícias sobre mortes no Iraque, o telespectador vai mudar de canal, vai preferir assistir a desenhos animados.
BF - Quando um intelectual, como o senhor, fala aos estadunidenses que em todo o mundo o país deles é chamado de império ou potência imperialista, qual a reação? Peet - Isso não acontece. É impossível. Os estadunidenses pensam que todas as pessoas no mundo querem ser como eles. Para eles, falar que os Estados Unidos são um Império é discurso dos invejosos. "Se não fosse assim, por que tantos mexicanos e latino-americanos se arriscam para entrar no país?", dizem. Os Estados Unidos são vistos como o paraíso.
BF - Como se define o imperialismo de Bush? Peet - Tem dois lados. Em primeiro, o neoconservadorismo, que é uma corrente de pensamento segundo a qual os Estados Unidos são a expressão máxima da liberdade, da democracia e da felicidade. Guerras são defendidas como um meio solidário para que outros países tenham acesso ao sonho estadunidense. É uma reversão teórica em todos os sentidos, pois se justifica o inaceitável como se fosse o bem para todos. Mas é preciso dizer: os Estados Unidos não são uma democracia. Eleições são vendidas e compradas. Cada pleito custa 4 bilhões de dólares, principalmente gastos em propaganda. As corporações financiam os dois partidos do país, o Republicano e o Democrata. Nosso sistema político não é uma democracia, é um grande mercado para os ricos. Em segundo, tem o lado do neoliberalismo, que defende que a economia estadunidense, perfeita e livre, deve ser expandida para todos os países. O mercado deve dominar a sociedade, o Estado tem que cair fora, privatizar as empresas públicas e garantir o funcionamento de instituições financeiras. Tudo isso, no fundo, é para garantir a entrada de investidores internacionais nos países, para que acumulem quanto dinheiro quiserem. Na lógica do governo dos Estados Unidos, o Brasil não passa de uma oportunidade para fazer dinheiro. O governo estadunidense não liga para o povo brasileiro. O mundo é visto como um conjunto de oportunidades para conseguir mais lucro.
BF - E a militarização? Peet - Os Estados Unidos têm meio milhão de soldados, que são enviados para diversos países, com a justificativa de fazer exercícios militares ou caçar grupos terroristas. O governo estadunidense não descarta intervenções militares em qualquer região do mundo, incluindo a América do Sul. Primeiro, ameaça por meios diplomáticos. O Departamento de Estado diz que vai cortar ajudas financeiras ou faz programas de propaganda contra o país que não os agrada. É o que está ocorrendo com Hugo Chávez, presidente da Venezuela, que é descrito como um louco na mídia dos Estados Unidos. O governo faz isso porque não quer, em um primeiro momento, gastar bilhões de dólares invadindo a Venezuela ou outro país. Além disso, não há soldados suficientes. Ninguém mais está entrando no Exército, pois não quer ir ao Iraque, morrer por uma causa na qual não acredita. Se a diplomacia não funciona, então a estratégia pode ser qualquer uma. No caso da Venezuela, o risco é maior pois esse país tem algo que os Estados Unidos querem muito: petróleo.
BF - É verdade que o petróleo dos Estados Unidos vai acabar em três anos? Peet - Não. É difícil calcular, mas está, lentamente, acabando. Em 20 anos, talvez os Estados Unidos estejam com pouco mais do que 10% de suas reservas. Em 50 anos, talvez esteja a 5%. Mas o governo estadunidense, que está diretamente ligado às questões do petróleo - a família de Bush é financiada por corporações do petróleo - está pensando em abrir áreas ecologicamente vulneráveis para a exploração, principalmente no Ártico, onde pessoas e animais serão aniquilados pelas corporações do petróleo. O discurso do governo é: "Estamos sem petróleo. Não faz mal que alguns animais morram para mantermos nosso modo de vida". E isso também justifica o aumento da agressividade dos Estados Unidos na política externa, caçando países onde há reservas de petróleo.
BF - A Agência Central de Inteligência (CIA) continua ativa? Peet - Sim. Espiões espalhados pelo mundo encaminham informações que são centralizadas nos Estados Unidos. No momento, por incrível que pareça, a CIA é o setor mais liberal da política externa. Critica a estratégia de Bush, que considera insana. Diz que os neoconservadores são um bando de loucos que chegaram ao poder e tomam decisões sem considerar as informações da CIA. Bush ouve o menor rumor e invade. A CIA pensa que é preciso usar poderosos canais de informação antes de definir uma estratégia ou ação militar. Para não ter confrontos, o Departamento de Defesa, liderado por um neoconservador, Donald Rumsfeld, tem sua própria organização de inteligência, que não presta contas à CIA.
BF - Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 foram usados por Bush para justificar ações militares contra Afeganistão e Iraque. Ele se valeu do medo das pessoas para impor sua política belicista. Hoje, os estadunidenses continuam com esse medo de terrorismo? Peet - Os estadunidenses pensam que, apesar de serem bons e representar o futuro da humanidade, há muitas pessoas, especialmente muçulmanas, que os odeiam, sem muita explicação. Esse medo poderia ser usado para mudar a política dos Estados Unidos, mas acaba sendo manipulado, muito facilmente, por governantes com respostas fáceis e prontas, como os neoconservadores. Apáticos, os estadunidenses, com medo, voltam para sua casa, para assistir televisão.
BF - Bush não pode mais ser reeleito, pois já está em seu segundo mandato. Vai surgir uma nova liderança neoconservadora? Ou uma alternativa? Peet - Há pessoas muito piores do que Bush, esperando para chegar ao poder, como o vice-presidente, Dick Cheney. Ele representa as grandes corporações no governo. Se Cheney ganhar, será muito pior. Bush tem uma inteligência limitada, mas tem os valores de um estadunidense conservador. Ele acredita em Deus, na tradição do país, e coisas assim. Cheney não tem nada: só vontade de poder e dinheiro. Antes de ser vice-presidente, ele era presidente de Halliburton, empresa que reconstrói países devastados por bombas e se tornou uma das principais parceiras do governo de Bush na guerra do Iraque. Cheney estimula o surgimento de cenários, ou seja, guerras, para Halliburton lucrar.
BF - Cheney é o mais cotado? Peet - Se não for ele, vai escolher um idiota qualquer, bem aparentado, que se tornará seu marionete no poder. E vai manter a linha da política: ameaçar ou invadir países, como Coréia do Norte, Cuba, Irã e Venezuela. Preferem ameaçar, mas, se invadirem, Halliburton fará rios de dinheiro.
BF - Como é possível os estadunidenses, que em outros tempos lutaram por direitos civis e democracia, aceitarem esse cenário? Peet - É um processo longo, no qual a mídia, como construtora ou destruidora de consciência, tem um papel fundamental. Os estadunidenses perderam o interesse em conversar com outras pessoas. Não há discussões em bar ou diálogos entre amigos. À noite, os estadunidenses foram domesticados para ir a suas casas assistir televisão. Nos Estados Unidos, isso quer dizer: sentar-se em frente a uma enorme tela, que toma toda a parede, e ser bombardeado por imagens, rasas em conteúdo e belas em aparência. Essas pessoas, sentadas, são facilmente manipuláveis e, por isso, aceitam a loucura de Bush.
BF - Qual a estratégia, a longo prazo, das pessoas que governam os Estados Unidos? Peet - Sou dos que acreditam que o que está em jogo no Oriente Médio não é somente o petróleo. É, obviamente, um elemento importante, mas não o único. Os Estados Unidos são governados por pessoas que defendem a expansão do império estadunidense, para ter um controle sobre o máximo de países possíveis. Não defendem colonialismo ou intervenções militares contínuas - aliás, querem tirar as tropas do Iraque, mas querem criar as condições necessárias para manter sua influência sobre o mundo. Acreditam, de modo convicto, que representam o melhor futuro para a humanidade. Querem fazer do mundo imitações dos Estados Unidos. São arrogantes e acreditam que as populações do mundo querem isso também. Querem o mesmo estilo de consumo, os mesmos programas de televisão, as mesmas roupas.
BF - Os intelectuais estadunidenses estão aceitando essa visão do mundo? Peet - Depende da universidade. Onde leciono, os acadêmicos têm consciência. Mas é uma exceção. Os estudantes, mais críticos, são oriundos de famílias de classe média alta. E isso é um dado da situação dos Estados Unidos: é mais fácil convencer e mobilizar pessoas da classe média alta do que trabalhadores.
BF - Como mudar isso? Peet - Eu queria ter uma resposta. Queria ter uma boa resposta, mas não há. Sou apenas um cara normal, com certa idade, marxista, com dois filhos, que vai para grandes salas de aula, com adolescentes estadunidenses. Alguém que tenta estimular uma visão diferente do mundo. Tento criar uma alternativa, mesmo que seja mental ou teórica, ao neoconservadorismo. Isso é algo solitário e, infelizmente, muito perigoso.
Quem é Richard Peet é professor de Geografia na Universidade Clark, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Trabalhou em estudos sobre a globalização com o geógrafo brasileiro Milton Santos, com quem escreveu o livro O Novo Mapa do Mundo (Hucitec, 1993). Também é autor de A Trindade profana: o FMI, o Banco Mundial e a OMC (2003) e de O Capitalismo Global (1991), não traduzidos para o português.
Fonte: Jornal Brasil de Fato |