Entre os animais, só o ser humano é capaz de diferenciar os tempos e construir história. Os povos antigos relacionavam os ciclos dos astros ao caminho humano. Acreditavam que a mudança das estações, principalmente o ano-novo, provocava energias que influenciam a Terra e tudo que a povoa: plantas, animais e humanidade. Por isso, na maioria das culturas, a festa de anonovo significa renovação de vida e esperança.
Infelizmente, no mundo atual, muitos ritos de ano-novo, marcados pelo consumismo, reforçam a desigualdade e injustiças sociais. Ainda bem que as famílias se encontram e as pessoas se confraternizam, o que, por mais que se repita, é sempre sinal do novo a que aspiramos. As pessoas, guiadas pela televisão, apagam luzes, abrem garrafas de vinhos borbulhantes e se abraçam. Trocam votos de “Feliz Ano-Novo”, mesmo se sabem que não bastam votos para tornar 2006 um ano melhor ou mais feliz do que 2005.
As perspectivas para este ano indicam que a pobreza aumentará, a relação da humanidade com a natureza continuará agravando a situação de risco do planeta Terra e as relações internacionais, ao que tudo indica, continuarão marcadas pela força das armas e não pela justiça e pelo direito.
O que há de novo neste anonovo é uma mobilização cada vez maior da sociedade civil internacional, em favor de novas possibilidades de convivência humana e relação com a Terra. O começo de 2006 será marcado pela realização do 6º Fórum Social, desta vez, acontecendo simultaneamente em vários continentes. Na América Latina, é a vez de Caracas, cidade-símbolo de uma nova unidade continental e libertária.
No plano pessoal, a gente pode viver o ano-novo como um tempo passageiro que, hoje, o calendário traz e, amanhã, terá passado. Mas, pode, ao contrário, assumir a mudança de ano como oportunidade para rever o tempo que passou e descobrir o apelo a uma vida nova.
As comunidades antigas entravam nesse espírito através de ritos nos quais jogavam fora algo que significasse o que está “envelhecido” (como o ano que acabou). E peregrinavam a uma montanha ou se banhavam em um rio, no primeiro momento do ano, para acolher o tempo novo dado por Deus.
Hoje, mais do que nunca, ninguém terá ano-novo melhor se não se comprometer para que toda a humanidade possa viver novas relações de paz e justiça. Cada pessoa poderá, então, dizer ao seu vizinho uma antiga bênção irlandesa: “Que o caminho seja brando a teus pés, o vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas em teus campos. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão”.
Marcelo Barros é monge beneditino. É autor de 27 livros, entre os quais está no prelo A Vida se torna Aliança, (Como orar ecumenicamente os Salmos), Ed. CEBI-Rede da Paz, 2005
Fonte: Jornal Brasil de Fato |