O conturbado 2005 se despede sem deixar saudade, irremediavelmente marcado como o ano do "mensalão". Afinal de contas, o câncer que se evidenciara de forma mais crônica na esfera política nacional revelou novos tumores em outras áreas da vida pública de Pindorama, até mesmo no futebol, esse eterno nicho do conservadorismo tupiniquim. De fato, a Série A do Brasileirão realizou o mais vergonhoso campeonato de sua história, com direito a lavagem de dólares da máfia transnacional no segundo maior time do país e uma bizarra - e até agora muito mal explicada - história de suborno da arbitragem, cujo desfecho, decerto, lançou uma terrível sombra de suspeição sobre o resultado final do torneio.
Se esse é o sentimento geral dos nativos, imagine o leitor como se sente um carioca, após os hediondos crimes que selaram o fim de 2005 na outrora Cidade Maravilhosa. A explosão do ônibus 350, em um subúrbio do Rio, iniciativa gélida e cruel de um grupo de "varejistas" do tráfico local, em retaliação a um recente confronto com a PM na área, além de indiciar uma nova e imprevisível etapa da nossa "guerra particular!", também acusou o completo abandono a que a capital e o Estado estão relegados pelas ditas "autoridades" que o povo ingenuamente elegeu. O prefeito, por exemplo, geralmente bastante loquaz quando se trata de anunciar sua candidatura à Presidência da República pelo PFL, ou as mirabolantes obras (todas atrasadas) do Pan 2007, não deu sequer um único pio: por certo, deve estar até hoje entretido a escrever o seu blog (diário virtual) na internet.
A governadora, por sua vez, refugiou- se pela enésima vez na ilha de Brocoió, uma bucólica estância em meio à mui graciosa e poluída baía de Guanabara. É sempre assim: quando o clima esquenta na caótica vida social da província, Little Rose (que, na língua vernácula, se traduz como Rosinha) pede licença médica e se recolhe à residência campestre, para tomar banhos de sais e orar pela paz no povoado. Nessas horas, ela costuma apelar para o galante Little Boy (Garotinho, na língua dos tapuias), à espera de alguma luz divina. Como diria o saudoso Barão de Itararé, "de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada..." Nas mãos do príncipe consorte, ainda não faz muito tempo, a Segurança Pública do Rio presenciou espetáculos lamentáveis, como a grotesca "investigação" do assassinato de um executivo ianque na Barra, em que o garboso Little Boy convocou a imprensa para apresentar um doente mental como autor do crime, sem ao menos concluir os ritos elementares de uma diligência policial e dos próprios trâmites judiciais.
Ninguém merece! - resume com um misto de ironia e desalento o povo carioca, sem perder o espírito coloquial e irreverente com o qual resistimos a tantos desatinos. E o pior é que em 2006 eles voltarão à carga, de olho no Planalto, ao lado de gente como José Serra, o velho morcegão tucano, e do próprio Lula, outro que ainda crê que a realidade pode ser travestida sob o condão de uma oratória pífia e burlesca. Todavia, nem tudo está perdido em Pindorama. Nossa gente possui uma fibra invejável e ainda é capaz de reações fantásticas nos momentos mais adversos.
Feliz Ano Novo, amigo leitor! E que 2006 seja o início da virada para todos nós...
Luiz Ricardo Leitão é editor, escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade de La Habana, é autor de ¿A dónde va la telenovela brasileña? (Editora Ciencias Sociales, Cuba)
Fonte: Jornal Brasil de Fato |