No subsolo do Museu Nacional de Munique, na Alemanha, há uma das maiores e mais belas coleções de presépios do mundo. Como estudante, muitas vezes visitava esses presépios, especialmente quando precisava realimentar meus anjos interiores. Ao sair, tinha a impressão de ter passado por um pedaço do paraiso preservado tal era a harmonia e a integração que se irradiava daqueles presépios.
Os mais impressionantes eram os grandes presépios de Nápoles. Neles se representava toda a realidade assim como é: agricultores cegando trigo, açougueiros cortando carnes, bancas de venda, crianças lançando pipas, duas mulheres brigando, soldados limpando armas, um padre abençoando, palhaços fazendo suas artes e de baixo da ponte um enforcado.
No centro desse mundo contraditório jazia entre palhas a divina Criança. Jesus, José, Maria, a estrela no céu, os anjos, os pastores, os reis magos, o sanguinário rei Herodes, os escribas maliciosos são mais que figuras concretas. São símbolos e energias poderosas que vivem e agitam nosso mundo interior. Revelam dimensões de nossa psique, marcada por buscas, por contradições e por um imenso desejo de totalidade.
É partindo desta visão mais ampla do que aquela objetiva e convencional que se revela a importância da divina Criança. Ao redor dela se cria uma ordem mágica, um centro luminoso que irradia sobre todas as coisas constituindo um todo coerente e significativo. A vida com suas contradições incluindo as crianças assassinadas por Herodes bem como o enforcado do presépio de Nápoles, não escapam da luz que se irradia do Presépio. A partir da presença da divina Criança surge a esperança de que tudo pode ser diferente, de que o Novo pode irromper. Eis o significado maior da Natal que não pode ser perdido pelas visões meramente piedosas e por sua utilização cultural e comercial.
Que signfica, numa experiência interior, a divina Criança? Ela representa a nova vida que quer nascer em nós. Mais concretamente ela simboliza a vida que pode sempre recomeçar desde o seu início, apesar das constradições e negações a que ela no submete.
No dia de Natal por causa da divina Criança nos é permitido esquecer as culpas e os erros cometidos para sentirmo-nos livres e para começar de novo. Os desejos escondidos e nunca realizados podem vir à tona e serem de novo alimentados. Podemos hoje, olvidar os hábitos cotidianos e as convenções que nos aprisionam e tentar mais uma vez abrir um caminho. Pelo menos cabe tentar. Não dizemos tantas vezes: ah se pudesse começar tudo de novo? No dia de Natal inspirados pela divina Criança que está dentro de nós podemos arriscar o primeiro passo de um novo caminho ou inaugurar um outro olhar sobre o caminho já andado para descobrir nele novas significações existenciais.
A festa do Natal, tão íntima e familiar, nos convida a superar, ao menos nesta noite mágica, o uso da razão analítica e calculatória, sempre a serviço dos interesses. Hoje é dia de esquecer os interesses, de dar lugar à razão emocional que não quer comprar nem vender nada, apenas sentir o outro e conviver com ele na alegria de estarmos juntos, em família, trocando presentes e amabilidades. Então emergem valores que sempre estamos buscando, sonhos de vida transparente, simples e livre, de ter sua casa, seu pedaço de terra, seu salário digno, sonhos que tanto agitam nosso imaginário.
Sabemos quem é essa eterna Criança. Fernando Pessoa, o poeta maior de nossa lingua, no-la revelou:” Ele é o Deus que faltava. Ele é o humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro”. Se pudermos despertar a divina Criança que dorme em nós, teremos descoberto o espírito do Natal e o alegre advento de Deus dentro de nossa atribulada existência.
Leonardo Boff é teólogo e professor universitário. É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos
Fonte: Jornal Brasil de Fato
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