Atravessamos mais um momento de seca no Nordeste e a naturalização dessa calamidade continua como uma nódoa na interpretação desse tema. Essa abordagem contribui para estigmatizar o trabalhador do campo, engessando e minimizando as questões sociais. Intrigante é que em mais de um século de políticas públicas institucionais, a questão das estiagens ainda é tida como o cerne da pobreza na região e a “solução hidráulica” - materializada nas grandes obras - como o instrumento salvacionista.
A percepção das estiagens como fenômeno natural incontroverso é anterior ao século XX e a visibilidade da seca como simples escassez de água reforçou, a cada calamidade, a inflexível empreitada das construções faraônicas de acúmulo hídrico. Com a criação de órgãos públicos, como o atual DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), e a SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), as ações do Estado no combate às secas passaram a ser mais diretas, mas ainda pouco efetivas, já que, reforçavam a política das grandes obras.
Vale ressaltar que intelectuais, engenheiros e demais obreiros dessas instâncias, empenharam-se de forma manifesta. Os principais atores desse cenário, a propósito, foram os operários-retirantes que viviam uma rotina de muita lida e pouca comida nas construções, trabalhando para garantir a sobrevivência nos tempos ruins e esperançando que aqueles monumentos trouxessem o alívio esperado.
A verdade é que as instabilidades climáticas são utilizadas até hoje para justificar os problemas nordestinos fora e dentro dos tempos de estiagem . Ainda não se conseguiu romper nem com a ideia de que a seca causa a pobreza e nem que tal obstáculo é sobrepujado com o acúmulo d’água. Se seca e pobreza fosse simplesmente falta d’água, o estado do Ceará, o maior em concentração de volume hídrico em açudes, seria a própria “terra prometida”.
Não podemos falar no acesso a água sem tratar do acesso a terra. Os problemas no campo tem uma relação basilar com o bloqueio do acesso ao solo para produzir. E esse é o entrave. O próprio acesso aos reservatórios hídricos é limitado pelo monopólio do chão. Ou seja, antes de fornecimento d’água, devemos observar o conservadorismo histórico que impera na estrutura fundiária do país e que dificulta a equação de problemas urgentes associados a pobreza.
Fora isso, o convívio sustentável, a investigação das peculiaridades de cada lugar e a busca por diferentes alternativas de renda são ações mais efetivas. A combinação de práticas sustentáveis – incentivo a plantios e a criação de animais apropriados a região, desenvolvimento da agricultura familiar e investimentos em cisternas, adutoras e irrigação que distribuem a água de maneira mais democrática – melhoram as condições de vida das pessoas.
Não se pode negar que a água é um elemento ímpar à vida e a falta dela tem desesperado o povo nordestino. Entretanto, o processo histórico aponta que as “soluções hidráulicas” faraônicas não foram e nem serão – sozinhas – a resposta desse engodo. Pequenas obras são genuinamente menos excludentes. Os infortúnios do Nordeste são tão diversos quanto as suas particularidades. Então, igualmente múltiplas, devem ser as soluções.
A peleja fundamental deve ser pela melhoria das condições de existência das pessoas que vivem no semiárido, pois, visto como “flagelado”, o trabalhador do campo e suas angústias são ausentados das falas dos oficiais e dos citadinos logo que a crise termina. Só assim podemos falar em dignidade e relativo ganho econômico, político e social para sujeitos tão ainda criminalizados pelas suas lutas.
A seca é, antes de tudo, um problema social fruto de relações baseadas na manutenção da miséria dos sertanejos. Associada ao poder dos nossos representantes, tornou-se instrumento estratégico da política, como se vê até os dias atuais – a exemplo da obra de transposição do Rio São Francisco.
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