A Comissão de Justiça e Direitos Humanos da Câmara Federal analisará nesta quarta-feira (7), às 14 horas, as conseqüências do ritmo intenso de trabalho na indústria avícola, que vem multiplicando o número de funcionários lesionados e inválidos. O vertiginoso crescimento das exportações do setor tem feito as empresas acelerarem a produção, sem a necessária correspondência nas contratações, com resultados catastróficos para a saúde dos trabalhadores.
Estarão presentes à audiência dirigentes sindicais de todo o país, acompanhados por trabalhadores que tiveram sua capacidade comprometida e que vão expor aos parlamentares as condições a que foram submetidos.
Segundo o Ministério da Indústria e Comércio, as exportações de carne e miudezas de aves vêm aumentando sem parar nos últimos anos, saltando de US$ 879 milhões em 2000 para US$ 2 bilhões e 862 milhões até outubro de 2005.
SAÚDE PÚBLICA - “As exportações, ampliadas ainda mais com a gripe aviária, aumentaram enormemente sem que as fábricas ampliassem o seu espaço físico ou contratassem proporcionalmente. É preciso que os parlamentares e o executivo se posicionem rapidamente, pois a intensidade do ritmo de trabalho está provocando graves enfermidades, e isso é uma questão de saúde pública”, defende o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Alimentação (Contac).
Um dos problemas detectados é que os trabalhadores vem adoecendo cada vez mais precocemente. No caso das mulheres, há o registro de um número infindável de manifestações de depressão, comumente relacionada às Lesões por Esforço Repetitivo (LER), conforme esclarece o doutor Roberto Mauro Arroque. Médico perito do INSS numa região do Rio Grande do Sul onde estão sediados vários frigoríficos de frango, entre eles a Penasul, desnacionalizada e hoje pertencente à norte-americana Osi Group, Roberto informa que o quadro mais comum é a síndrome do túnel do carpo.
INFLAMAÇÃO - De forma didática, o médico explica que é como se o túnel fosse um vale do antebraço, do punho, por onde passa o nervo mediano, os tendões, que acabam seriamente comprometidos pelo movimento contínuo das mãos. “Essa inflamação nos tendões acaba depois incluindo estruturas próximas, músculos e nervos... O trabalhador começa então a ter dificuldades, dor, e se esse quadro perdurar, ele acabará ficando permanentemente incapacitado, inclusive para atividades banais do seu cotidiano”, conta. A partir de uma certa altura, esclarece Roberto, “a pessoa começa a sentir-se incapaz e, por fim, se sente inválida, temendo pelo próprio futuro, pela sua integridade física, pela maneira que ela vai cuidar de seus familiares. Assim, é muito comum, comum mesmo, que quase todo paciente com LER tenha algum grau de depressão”.
Inconformado com o grau de exploração a que os trabalhadores das indústrias avícolas vêm sendo expostos, o perito desabafa: “Nós estamos entendendo que ocorre às vezes um fenômeno de despejo de funcionários da empresa, aqueles que não estão rendendo o máximo, para cima do INSS, para cima da Previdência Social. Uma vez que é aproveitado o máximo de sua capacidade, e às vezes o máximo é o esgotamento e depois ainda é exigido um suquinho final. Então ele é mandado para nós no bagaço. E isso é muito freqüente. Eu não diria que esta é a regra, mas está muito longe de ser a exceção”.
DORES - Moradora da cidade gaúcha de Lajeado e trabalhadora desde 1995 na Avipal – controlada pelo grupo francês Doux -, Lourdes Fátima Dias Lopes relata que apesar de já ter se submetido a cinco cirurgias, nas mãos e nos ombros devido à intensidade do serviço repetitivo, não houve cura e a dor permanece. “Quando chega uma hora a gente começa a sentir uma dor forte. Aí vai. Aquela dor no braço sobe pro pescoço e dá uma dor intensa na cabeça e tem que tomar remédio forte. Esse é um dos sintomas que eu sinto até hoje, e vem piorando cada vez mais. Tem bastante gente na empresa com o mesmo problema. Não vou dizer que seja grave como o meu, mas que tem muita gente operada na empresa por causa disso, tem sim”.
DEPRESSÃO - Atendendente do INSS na cidade de Serafina Correa, também no interior gaúcho, Julce Maria Grechi, relata que são cada vez mais freqüentes os casos de depressão: “a dor que a pessoa sente com as doenças por esforço repetitivo acaba fazendo com que se sinta mal. Então ela vai trabalhar e não consegue desenvolver o serviço como gostaria e há ainda a cobrança dos superiores”.
Diante da extensão e gravidade do problema, Contac e CUT vêm ampliando a pressão para que o governo interfira na questão, que envolve grandes exportadores. “Exigimos o estabelecimento de normas que disciplinem a velocidade das máquinas no setor agrícola, principalmente das nórias, as engrenagens que carregam os frangos nos frigoríficos e que ditam o ritmo de trabalho. Além disso, é fundamental reduzir a jornada de trabalho no setor para seis horas diárias, já que o trabalho é extenuante e tem implicado em graves e complexas lesões, incapacitando um grande número de trabalhadores”, afirma Siderlei.
Além dessas medidas, sublinha o presidente da Contac, os Sindicatos têm defendido o rodízio nas funções de duas em duas horas, com vistas a reduzir os movimentos repetitivos; estrutura para fisioterapia; e o reconhecimento pelo INSS de que as lesões causadas por eles são uma doença profissional do setor.
Todas as reivindicações integram a Agenda do Trabalhador, já entregue pela CUT ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho; ao ministro da Previdência, Nelson Machado; e aos presidentes da Câmara, Aldo Rebelo, e do Senado, Renan Calheiros. Fonte: CUT
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