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Notícias

  01/12/2005 

Bancos lucram, desemprego aumenta

A disputa corre solta entre ministros em Brasília, e já não há mais como esconder que a política econômica, louvada pelo setor financeiro, analistas badalados e pela grande imprensa, jamais foi exatamente uma unanimidade dentro do governo. Uma comparação relativamente simples pode contribuir para entender o que há por trás das desavenças ministeriais e demonstrar quais os setores favorecidos pela política de juros escorchantes.

Entre janeiro e setembro de 2005, enquanto os lucros dos cinco maiores bancos do país (excluída a Caixa Econômica Federal), somados, registraram um salto recorde de 52%, o total de empregos criados no mercado formal de trabalho (ou seja, com carteira de trabalho assinada) encolheu 16% na comparação com os mesmos nove meses de 2005. A política de juros altos, de um lado, turbinou os ganhos dos bancos e, de outro, fez murchar a oferta de empregos ao provocar desaquecimento da atividade econômica.

Bradesco, Itaú, Unibanco, Banespa e Banco do Brasil acumularam lucros totais de R$ 13,9 bilhões até setembro, diante de R$ 9,2 bilhões em igual período de 2004. Os dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que afere o desempenho do emprego no mercado formal, excluindo as pessoas que trabalham por conta própria (em bom português, que fazem bicos para sobreviver diante da ausência de alternativas mais promissoras), mostram que foram abertas, naqueles nove meses, pouco menos de 1,4 milhão de vagas no país, quase 258 mil abaixo dos níveis alcançados no acumulado entre janeiro e setembro de 2004 (quando foram criados 1,7 milhão de empregos novos, já descontadas as demissões ocorridas no período).

QUEDA CONTINUA
A tendência de queda prosseguiu em outubro, quando foram gerados 118 mil empregos, perto de 9% abaixo dos 130 mil criados em igual mês do ano passado. Na comparação com setembro (190 mil vagas), houve um tombo de 38%. Com exceção de janeiro e abril, os resultados mensais anotados pelo MTE têm sido repetidamente inferiores aos dos mesmos períodos de 2004, o que ressalta a desaceleração na economia como um todo.

A estatística fria aponta exatamente quais têm sido os setores verdadeiramente beneficiados pela política de arrocho imposta pela equipe econômica. Os lucros dos bancos, neste ano, são não apenas vergonhosamente altos para os padrões brasileiros, mas superam, proporcionalmente, até mesmo os resultados colhidos pelos maiores grupos financeiros do planeta.

LUCRO&PATRIMÔNIO
Especialistas em contabilidade, analistas financeiros e consultores adotam alguns critérios para avaliar o desempenho de empresas e instituições financeiras. Entre esses critérios, um dos mais utilizados compara o lucro líquido (quer dizer, o ganho final, depois de descontadas todas as despesas, inclusive o pagamento de impostos) de determinada empresa ou banco com o seu respectivo patrimônio líquido (bens, títulos, ações, aplicações financeiras em geral e dinheiro em caixa, que ficam à disposição dos acionistas, donos da empresa ou banco), após descontado o passivo total da companhia (dívidas em geral e outros compromissos com terceiros).

Quanto maior a relação entre lucro e patrimônio líquido, mais rentável, ou lucrativa, é a empresa ou banco. No Brasil, os quatro maiores bancos privados, segundo levantamento da empresa de consultoria Austin Asis, tiveram sua rentabilidade ampliada de 21,9%, até setembro de 2004, para 29,1%, em idêntico período deste ano. Quase um terço a mais.

RECORDE MUNDIAL
O Itaú, por exemplo, alcançou uma rentabilidade de 39,4% (isso significa que seu lucro trouxe um retorno de quase 40% para os acionistas, considerando o dinheiro que investiram na instituição).

Numa comparação feita por outra empresa de consultoria, a Economática, a pedido do jornal Folha de S.Paulo, numa lista de 26 instituições fi nanceiras de porte semelhante, daqui e dos Estados Unidos, Itaú, Bradesco e Banco do Brasil lideram, com rentabilidade, pela ordem, de 34%, 30% e 26% ao ano.
O banco estadunidense melhor colocado - o National City Corp. - conseguiu devolver um lucro equivalente a 25% do investimento feito por seus acionistas. Os donos dos gigantes JP Morgan Chase e Bank of New York reembolsaram 13,5% e 16,5% dos seus investimentos, respectivamente.

Como se percebe, a rentabilidade dos maiores bancos brasileiros chega a ser duas vezes e meia maior do que a de instituições similares nos EUA. A diferença está exatamente nos ganhos permitidos pela política de juros altos, já que a taxa básica de juros no mercado financeiro dos Estados Unidos está entre 4% e 4,5% ao ano. 

Uma perversa concentração de renda
 
Neste ano, no Brasil, ao contrário do que ocorreu em outros períodos, não foram apenas os ganhos na ciranda financeira, obtidos na compra e venda de títulos do Tesouro Nacional e do Banco Central, que alimentaram os lucros das instituições financeiras. Na verdade, uma parcela importante das receitas dos bancos (65% no caso do Itaú, por exemplo) veio dos empréstimos a pessoas físicas e empresas, com o crescimento dessas operações e com a cobrança dos juros mais altos do mundo.

No Bradesco, 39% do lucro vieram das operações de crédito, dos empréstimos tomados por empresas e pessoas físicas. Estudo preparado pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio) informa que o consumidor desembolsou, entre outubro de 2004 e setembro de 2005, nada menos do que R$ 65 bilhões, apenas para pagar juros a bancos, financeiras e empresas de cartão de crédito. Aquele valor corresponde a um crescimento de 28% em relação aos R$ 51 bilhões consumidos pelas despesas com juros nos 12 meses de 2004.

O aumento, de quase R$ 14 bilhões, está relacionado ao crescimento do total de empréstimos (R$ 12 bilhões) e ao aumento dos juros (R$ 1,6 bilhão). Cada ponto percentual de elevação dos juros básicos, segundo a Fecomércio, custa R$ 500 milhões ao consumidor.

CONTA SALGADA
A despesa realizada nos 12 meses terminados em setembro, aqueles R$ 65 bilhões apontados pelo estudo, representou praticamente um mês da renda das 48 milhões de famílias brasileiras que recebem mensalmente perto de R$ 69 bilhões segundo dados de 2004 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Desde 2001, a despesa das famílias com juros aumentou nada mais, nada menos do que 81%, saindo de R$ 36 bilhões, ou o equivalente a 3% de todas as riquezas produzidas pelo país naquele ano. A relação entre despesas com juros e o Produto Interno Bruto (PIB) atingiu um recorde de 3,4% neste ano, de acordo com a Fecomércio, no maior percentual em cinco anos.

A conta salgada paga pelos consumidores no momento de honrar a prestação do crediário, o cheque especial ou as parcelas do financiamento ajudou a alimentar o lucro dos bancos, num processo de transferência de renda que ajuda a entender como operam os mecanismos que perpetuam a concentração de riquezas no Brasil. Mais claramente, a política de juros altos não só impede a economia de crescer, inibindo investimentos, como concentra a renda em favor de grandes grupos econômicos e financeiros. 

Fonte: Brasil de Fato

Última atualização: 01/12/2005 às 11:02:00
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