O cenário político nacional e o ambiente no Congresso Nacional já está completamente contaminado pela disputa eleitoral de 2006. A lógica que orienta as investigações nas Comissões Parlamentares de Inquérito e o trabalho parlamentar respira eleições vinte e quatro horas por dia. Para o líder da bancada do PT na Câmara Federal, deputado Henrique Fontana (RS), esse ambiente de disputa pelo poder vem dando à crise política uma dimensão “trezentas vezes maior do que a realidade”. Em entrevista à Carta Maior, Fontana ataca a estratégia da oposição, denunciando o que chama de “amnésia tucana”, uma referência ao comportamento do PSDB em relação ao desempenho dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso.
“Eles fazem esse discurso a partir de uma visão atemporal. Fazem de conta que o Brasil foi descoberto no dia 1° de janeiro de 2003 e que tínhamos um grande quadro em branco para escrever um futuro brilhante para o país. Fazem de conta que não tínhamos a dívida que tínhamos, que não tínhamos o grau de dependência ao qual o país foi levado por um conjunto de escolhas ao longo de sua história, especialmente em sua história mais recente. Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu, a dívida brasileira representava 23% do Produto Interno Bruto (PIB); quando deixou o governo, oito anos depois, ela chegou à casa dos 58% do PIB”, dispara o líder petista. Na entrevista, ele também elogia a posição da ministra Dilma Roussef e defende a necessidade de uma inflexão na política econômica para garantir maiores investimentos públicos em infra-estrutura e políticas sociais, além de uma redução mais rápida e significativa da atual taxa de juros.
Carta Maior - Qual sua avaliação sobre o atual momento político e sobre a situação do PT, após cerca de seis meses de um intenso bombardeio por parte da oposição? Henrique Fontana - Estamos vivendo um ambiente onde, a cerca de dez meses do primeiro turno das eleições de 2006, a conjuntura política está totalmente dominada pela disputa eleitoral. Essa disputa pelo poder está vivendo um momento de grande acirramento e profunda virulência por parte da oposição ao nosso governo. Por um lado, não podemos em nenhuma hipótese simplificar o que aconteceu e deixar de reconhecer que o PT cometeu uma ilegalidade que foi a prática do caixa-dois e a construção de acordos político-eleitorais que incluíram o repasse de recursos financeiros para os partidos que compõem a base de sustentação do governo. Trata-se de uma ilegalidade e de um erro que o partido não deve voltar a cometer e pelos quais ele deve pedir desculpas à sociedade e se reciclar, corrigindo seus rumos. Por outro lado, o ambiente da disputa política procura dar a essa crise uma dimensão trezentas vezes maior do que a realidade.
CM - Qual o núcleo da estratégia da oposição neste contexto de disputa eleitoral? HF - Estamos presenciando uma ação forte, especialmente dos dois principais partidos que compõem o núcleo estratégico da oposição, PSDB e PFL, com reforços importantes dentro da mídia como é o caso exemplar da revista Veja, cuja linha editorial procura alimentar permanentemente essa conflitividade e criar uma versão que é repetida um milhão de vezes pela oposição. Na visão desses setores, este seria o maior escândalo de corrupção da história do Brasil e estaríamos presenciando uma crise de proporções inéditas. Na recente convenção do PSDB, o prefeito José Serra fez um discurso procurando construir uma crítica aos limites da nossa política econômica e à dimensão ética do nosso governo. O que essa estratégia revela, porém, é o que chamo de amnésia tucana. Eles fazem esse discurso a partir de uma visão atemporal. Fazem de conta que o Brasil foi descoberto no dia 1° de janeiro de 2003 e que tínhamos um grande quadro em branco para escrever um futuro brilhante para o país. Fazem de conta que não tínhamos a dívida que tínhamos, que não tínhamos o grau de dependência ao qual o país foi levado por um conjunto de escolhas ao longo de sua história, especialmente em sua história mais recente. Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu, a dívida brasileira representava 23% do Produto Interno Bruto (PIB); quando deixou o governo, oito anos depois, ela chegou à casa dos 58% do PIB.
CM - E qual deve ser a estratégia do PT para enfrentar esse discurso? HF - Acredito que o nosso papel, em primeiro lugar, é sempre retomar a circunstância em que o Brasil estava quando assumimos o governo do país. Lembrar o grau de vulnerabilidade que o país vivia e continua vivendo. Houve uma diminuição mas continua sendo um grau de vulnerabilidade importante. Além disso, precisamos ressaltar dados comparativos dos dados do nosso governo com os números do governo FHC. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer e construir uma compreensão junto à opinião pública de que nós também não estamos completamente satisfeitos com os resultados do nosso governo. Sabemos que é preciso superar os limites que ainda enfrentamos. Neste sentido, é correta a fala da ministra Dilma Rousseff abordando a necessidade de ampliar com responsabilidade os investimentos públicos, como uma das questões fundamentais para poder ampliar a capacidade de crescimento econômico do país.
CM - Mas é possível essa ampliação de investimentos públicos sem qualquer tipo de mudança na política econômica? HF - Nesta mesma linha de análise, precisamos dizer, ao mesmo tempo, que o governo Lula tem um resultado na geração de empregos que é doze vezes maior do que aquele do governo daqueles que hoje nos criticam, e que podemos ir além disso se conseguirmos fazer uma flexão na nossa política econômica, ampliando os investimentos públicos em infra-estrutura e políticas sociais e trabalhando para uma redução mais rápida da taxa de juros. É preciso reconhecer que o capital financeiro ainda tem uma hegemonia muito forte dentro do país. Mas isso é fruto muito mais do que foi a condução econômica do país no governo Fernando Henrique Cardoso do que da falta de uma ousadia maior do nosso governo. Então, não é possível aceitar que Serra, Alckmin, Fernando Henrique e Aécio apareçam como aqueles que vão fazer a crítica das altas taxas de juros que significam uma hegemonia exagerada do capital financeiro. Em primeiro lugar, é um discurso surrealista. Em segundo, é um desrespeito à memória do povo brasileiro. Mas é essa disputa que eles estão propondo, na linha da amnésia tucana. Nada do que eles fizeram deve ser debatido.
Para conferir a entrevista na íntegra, acesse o site da Agência Carta Maior
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